segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dulcineia


Amor?
Oh, o amor é uma droga potente. Pega numa coisa completamente sã e transforma-a num bicho-de-sete-cabeças, tão subtilmente que a maior parte das vezes é só por isso que se dá por ele. Senão vejamos que há uma pessoa completamente normal, de carne e osso, de rija e boa saúde, isto antes de nos apaixonarmos por ela.

Então lá vem o amor, com poses de borboleta, como a traça ou o caruncho fragiliza o objecto, digamos objecto da paixão, de camponesa trigueira a princesinha de cristal, partindo-se a cada segundo com os nossos imperfeitos olhares, com a própria ânsia no nosso pensamento, de tal ordem que, de quanto se faz, tudo é errado e exagerado, tudo faz sufocar ou esquecer, na sensação de vitimização pela impropriedade própria dos homens quando confrontados com os anjos, e eis que se devota o incréu a voos flutuantes de etéreas contemplações entre luas brilhantes de cetins azul-céu, sorrisos dengosos e beijos demorados.

Lá vem o amor jovem, e como pousa bem, como fica bem nas palavras e nos olhos, como é boa esta dor miudinha de quando não se sabe se vai passar e olhar para nós.
Como comove, quando cresce e ocupa espaço que faz brotar lágrimas e lamentos.

"Encomendo-te ao papel como se te traçasse no meu destino, sofregamente e impotentemente. Soubesse eu desenhar, desenhava-te só com a mente, para só eu te ver e mais ninguém, como se me vingasse das obscuras lembranças de dias então idos de te não beber. Soubesse eu cantar, cantava com a tua voz doce e terna, para só eu te ouvir e mais ninguém, para fechar os olhos e ser engolido no aconchego da tua voz. E tocar-te… soubesse eu o texto da tua pele, tecia o mundo inteiro só para mim, refugiava-me na tua pele de veludo e morria feliz. Soubesse eu o teu cheiro fresco de Primavera no campo, espalhava-o pelas flores nos prados e pelos alecrins das montanhas e pelos ventos d’aquém e d’além, para que não mais tivesse que cheirar outro que não o teu, refrigério dos meus olhos, sorriso de lua enamorada, fim das minhas palavras…

O teu nome é o nome das minhas inanições, porque só tu és a minha saciedade, o teu corpo é a minha alma e a tua alma é o meu céu, o teu verbo o meu mandamento e o teu silêncio o meu inferno.

E beijar-te… explodir um beijo na carnura da tua boca, abraçar-te com o corpo inteiro e saber que nunca mais vais embora, dormir com os deuses na tua cama e sonhar de olhos abertos, sem saber nem querer saber, na anestesia da tua providência. Ser íntimo de ti como és íntima de mim e perder-me na delícia dos teus labirintos irreversíveis e inenarráveis de édenes e nirvanas, onde não acabas e não vais embora nunca mais. E, se fosses, fosse eu também contigo, fosse eu contigo para onde fosses, descesse eu contigo às cavernas escuras e fosses tu a minha luz, meu pedaço de sol, meu sol inteiro. Minha lua triste."

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mensagem ao Professor Marcos Bagno

 Face à publicação deste animal no seu site, senti a necessidade de responder por e-mail. Façam o mesmo.
bagno.marcos@gmail.com
http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=364
"Caro Professor Marcos Bagno,

Venho por este meio informá-lo da minha perplexidade em relação às suas publicações, nomeadamente "Bobagens sobre o Acordo ortográfico".

Esclarecendo as razões da estupefacção que senti quando me deparei com tal publicação:

Portugal é um país grandioso a atravessar um mau momento. Vir falar de panoramas políticos e de "Deixar os Portugais morrerem à míngua..." como justificação para o seu ponto de vista não só denota pequenez de espírito como ignorância e, atrevo-me, uma falta de discernimento muito característica de que não sabe quando estar calado.
E no que à língua diz respeito, porque é isso que aqui se discute, penso que concordará comigo acerca das raízes históricas do Português de Portugal e do Português do Brasil, em como foram os Portugueses que ensinaram a língua aos Brasileiros e, se estes a modificaram ao seu gosto, também aqueles, o que não significará Nunca que ela se tenha tornado propriedade do país aprendiz, nem sequer que este tenha algum tipo de voto na matéria, e muito menos que venha um sujeito mais ou menos desimportante na sociedade (porque eu não o vou confundir com o resto dos Brasileiros) arrogar algum direito sobre uma língua que tinha o dever de ter preservado.

Mas também não é isso que está em causa, porque, como diz o ditado, "Cada cabeça, sua sentença", e para isso é que existe a democracia que, bem ou mal, nos vai levando.

Não, meu caro, o que me intrigou, depois indignou e depois enfureceu ao ponto de me fazer dar ao trabalho de o contactar, é que a publicação tem erros graves - e esses, duvido que estejam previstos no AO que, confesso, não li na íntegra, mais por desprezo que por falta de tempo.

Assim, tomo nos meus ombros a árdua tarefa de o corrigir:

"Mas não existe lei que uniformize os modos de falar, porque isso é impossível, tanto quanto é impossível uniformizar a cor da pele, dos cabelos ou dos olhos das pessoas – falar faz parte da nossa configuração biológica." - Esta frase contém um erro científico que passo a elucidar: A fala é uma função que engloba mecanismos motores, sensitivos e sensoriais. Se, até certo ponto, a maneira como pronunciamos os vocábulos depende de estímulos neurológicos centrais, na ausência de patologia neurológica a correcção da fala - seja pronunciação, sintaxe, léxico, semântica, etc. - depende inteiramente do processo cognitivo. Simplificando, na ausência de défice neurológico, quem aprende a falar bem, fala bem.

"E é também um quase nazismo querer que todas as pessoas falem de um modo uniforme, considerado o único “certo”, só porque a classe alta, minoritária e branca fala assim." - Bravo!, conseguiu elevar a discussão a um nível totalmente diferente. Só é pena que ninguém esteja a dizer que os Brasileiros tenham que falar ou escrever como os Portugueses. O Brasil já não é uma colónia, a independência existe e, graças a deus, também a liberdade de expressão. A questão é com os governantes que querem uniformizar a língua e obrigar-me, a mim que sei escrever português de acordo com a regras actuais, a escrever de acordo com alguém que não escreve. Vamos então, no seguimento do seu exemplo, a mais um exemplo absurdo - acha que, como é irrepreensível e inofensivo ser homossexual, ainda que fuja à regra, devemos todos ser privados do direito à heterossexualidade? Pois...

"Registrar" não é uma palavra. Talvez quisesse dizer "Registar". Ou também está previsto no AO que todos temos que escrever assim? Das duas, uma: se não está, alguém que tão acerrimamente o defende deveria emendar esse erro. Se está, então gostaria que me explicasse quais os "critérios históricos, políticos, culturais, de classe social" em que se baseia essa alteração.

Toda a "Bobagem nº3": estou certo de que alguém tão inteligente como você não necessitaria de descer tão baixo e pegar numa mesquinhez semântica para refutar um argumento que, confesso, é algo inválido.

"Bobagem nº 4": cá está. E concordo consigo em tudo, excepto na pequenez que atribui a Portugal, denotando-se uma falta de respeito imensa de que deveria ter vergonha. O problema é que Portugal não tem que abdicar da sua língua em prol da relevância de Brasil no panorama económico (e não se escreve "econômico", está errado). Se o Brasil quer relevância, adopte o Brasileiro como língua oficial, porque eu não vou meter viola nenhuma no saco quando alguém vem desmerecer na minha Pátria, seja para o que for e muito menos para ter a audácia de me pedir o Favor de abdicar da minha Língua.

A frase:

"Portugal (...) se recusa a ver que quem lidera a lusofonia, hoje, somos nós."

 
incorre num grave erro sintáctico. O correcto seria "Portugal (...)recusa-se a ver(...)."


Esclarecidos todos os erros, incorrecções e quejandos pontapés no Português e no senso comum, despeço-me na forte esperança de que a vasta maioria dos Professores e Linguistas brasileiros sejam infinitamente mais sábios e competentes que Vossa Excelência, que se expõe ao ridículo de se deixar corrigir por um estudante universitário Português, e não, Senhor Professor, não de Português, porque eu estudo Medicina (por isso perdoe-me algum erro que venha a encontrar da minha parte). Caso alguma vez esteja de visita ao meu maravilhoso País, rogo-lhe que me contacte para que eu possa, talvez, proporcionar-lhe uma visita guiada pela lindíssima cidade de Lisboa, por entre os "Portugais", ou talvez inscrevê-lo num curso básico de Português para analfabetos funcionais.

Obrigado e passe bem.

Miguel de Miguel"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Aleatoriedade

Condoído. Sente uma mescla acre de mentol e tabaco na língua, na boca, na alma. Frágil e levemente entorpecido pela bruma que se ergue para saudar uma nova manhã, que de novo tem pouco pois com ela traz os anciães vícios de outras alvoradas doentes e podres, corrompidas pelos fantasmas oriundos das sombras. Sombras negras e impenetráveis. Sombras que o escondem. Sombras que o engolem. Sombras desassombradas pelo som dos pardais dum castanho disforme e pálido que se lançam num voo picado para o rebuliço do quotidiano bruto e cru, constrangido pelas necessidades animalescas da alimentação e reprodução. Sexo e pão. Sangue e morte. Eis o que é a vida, já o haviam discernido em orgias selváticas os romanos.

Contudo, ele sente-se tão-só dorido. Uma dor física que transcende o espírito pobre e abúlico. Chama ténue acesa num fugaz momento azulado. Chama extinta, efémera como a existência. Mesmo que essa existência se destrince, na sua significância, da vida. Que vida, ai, que vida. Mera sucessão de dias, meses, anos com prazo de validade. Sequência perene de estações que passam por nós com a indiferença a que votamos o que não nos interessa - ou seja, quase tudo. Raça egocêntrica. Não isolada, não, jamais sozinha. Muitas vezes só, mas nunca sozinha.

Ele está só. Só porque sim, ou quiçá por alguma razão que venha sublimar o que de errado tem tudo aquilo onde repousamos o olhar com um ensejo entusiasta de quem vai mudar o mundo a partir do quarto, a partir até - ah, horror prepotente, cúmulo do comodismo - da cama. Razão que ilude habilmente a própria racionalidade de querer estar só.

Ressoa pelo mundo um suspiro, profundo e condoído. Ele está só e sozinho. Morre. Perece. Fenece. Cai com as folhas nas quais o verde viçoso da memória dum Verão alegre e cantarolante cede gradual porém inexoravelmente lugar ao tom acastanhado da tristeza sazonal que deprime de tal forma os dias que os obriga a esconderem-se prematuramente da luz, demasiado reveladora das imperfeições salientes nas rugas que se formam quando o sorriso morre. Quando ele se solta, dá largas à sua melodia, toda a ruga tem uma desculpa para existir. Caso contrário, quando os sorrisos são substituídos pela normalidade sisuda, assumem-se de imediato como sinais da provação a que todos nós nos vergamos. A provação do ser.

Ele está sozinho e só. Brotam da noite lágrimas brancas que ponteiam os caminhos virgens do céu. Brotam dele lágrimas transparentes, insípidas como ele próprio, como o seu sofrimento oco e fútil. Jorra-lhe do peito um vómito de paixão, num reflexo poderoso e extasiante que o deixa prostrado no chão, sem vontade de se revoltar contra a mágoa que o preenche de modo tão completo que não permite a compreensão da infantilidade do pranto. De joelhos, numa varanda delimitada por metal retorcido e enferrujado, com lascas de tinta de cor indefinida. Deitado, embalado pelo rumorejar do ribeiro a seus pés, que corre, corre, corre até se escoar para uma amálgama incógnita e negra no ocaso para lá do horizonte.

É o carpir que o acorda. O carpir da noite onde adormece e acorda, ele que não conhece outro sol que não o da noite cerrada. Tudo é noite. Tudo é morte. Somente o luar lhe permite sobreviver às sombras. Somente aquele fio de ouro alvo lhe permite ver as folhas que se acumularam em sua volta, lápide botânica sobre túmulo de calcário. Numa delas desenha com os dedos esguios e feridos pelas farpas de mil ramos ásperos as letras dum nome indistinguível. Contempla a obra imaginária com um olhar sonhador, distante, orgásmico. Regozija-se no que pensa que é mas não é, no que alucina que seria mas que nunca será, sem deixar de ser o que hipoteticamente seria sem sê-lo. Delira na febre apirética de amar a obra que mais ninguém poderá apreciar. Nem por isso a preza menos, pois é dele, só dele. Ele está só. Ele está sozinho. Ele está com ela sem estar. Ele está com ela apenas para apaziguar o seu desejo egoísta de sentir prazer, de sentir a felicidade, de julgar ser imortal, sobrevivendo a toda a morte que o envolve graças à paixão solitária que acaricia, que cuida carinhosamente sem se importar se ela é real ou não.

Ele está, mas por quanto tempo? Não falta muito para que se transfigure nas sombras que o guardam, para que nele se imiscua o negrume do nada. Ela está longe, tão perto e simultaneamente longe. Se ele deixar de olhar para baixo, talvez a veja, a ela, a real. A carne que lhe transporta o espírito, e não a reconstituição idealizada duma figura imaterial. Quem sabe, se ele acordar da noite deixará de estar só, de se arrastar na escuridão como o verme a que se reduziu ao roer por dentro o próprio intelecto.

A morte vem. A solidão aperta. A letargia de quem recusou a luz clara é paralisante. Mas não irremediável.
O dia de hoje rasga a carne.
O dia de hoje é mal dito e mal parido.
Hoje é um dia de sol quente e assadura na virilha.

Esta noite é de cores invertidas,
É de subvertidas reacções.
A noite que se vive é de medo e alucinações.

Porta fora, já se explora a vergonha da noite menina. Já se vai cansado de mijos e bafos, se não se morre é porque o afogueamento não compra sequer o suspiro da partida, já se vai preso ao cenário, já se mexe os braços da maneira que esperam os ébrios mexilhões claclaquejantes dos meios das ruas, já se mete nojo a si próprio e nada mais há a fazer que não aceitar o radiopassivo decaimento das pedras ao som de estática sem propósito.

É assim que se anda pelas ruas deste sítio morto, sem companhia, sem alma e sem música.
É assim que os olhos engasgam um vulto ao virar da esquina e o medo adivinha toques e gritos de todas as direcções, sobressaltos e sangue gelado a cada segundo, de trás, de cima e de baixo, dos lados, um e outro, e da frente. Até de dentro, quando o absinto arranha a garganta com unhas e barba rija que vem de dentro para fora, sufoca o vómito e deita ao chão, de barriga para baixo, pila no meio das pedras, cumprindo a primordial função de cuspir a peçonhenta semente e violar a noite, que guincha sem dó e roda sem acorde nenhum ao fundo deste psicadélico dossel, cada vez mais rápido, berrando o meu apelido, sorvendo o meu suor e cuspindo na minha boca.

Passam os travestis. Passam os drogados. Passam os mosquitos. Passa o mau cheiro. Passa a foda. E o tempo passa, comigo deitado no chão, já sou eu há algum tempo. A morte já chegou, mais o seu cheiro, há algum tempo, e já passou, também, e o cheiro arranjou casa nas paredes descarnadas e fui enterrado bem longe de mim.
Não chove neste deserto onde estou, não há cura para esta lepra, não há droga para este pensamento. Estou no mundo e na posse da agonia, e ela pôs-me sóbrio só para me poder quebrar o espírito.
Estou possuído pelo filho mais feio do demónio.

Saudações cervejeiras!
Miguel de Miguel, escrivão e grão-mestre d'A Confraria da Cerveja

sábado, 20 de agosto de 2011

Vai ser numa noite assim, precisamente como esta.
Não a desejo nem a temo nem a agoiro, sequer, espero-a com uma concentração impenetrável e as duas mãos pousadas em cima da mesa, oito dedos numa tablete de gatilhos e mais dois para lançar de uma palavra em outra, será o espaço intervocabular como o pau das cerejas, raios o partam mais a sua irritante recorrência, e tudo isto o faço como o tísico que espera pacientemente a morte à porta só para lhe fazer a desfeita de se lhe adiantar com um tiro engolido de baixo para cima.
Ou como o amante, à porta esperante, feito destroço em três actos, o próprio, a faca e o alguidar, todos três unos na dor libertadora da retribuição, o primeiro para açoitar com o adjectivo quem com o verbo ainda o fere, desfere a segunda dilacerações no coração de quem lho esmagou, o derradeiro apara os jorros do sangue apodrecido de pecados carnais e derrama-lho rua abaixo e noite dentro, rumo só à ignomínia, salvo a boca de algum cão.
Tudo isto já viu vezes sem quanto e ainda a puta não chegou, nem chegou a noite, a minha puta daquela noite que vai ser, ponto por ponto, como é esta, e é ainda nesta que lhe ensaio os cheiros, as poses, as luzes e os sons todos, demasiados e sobre tudo encavalitados, passos da vizinhança, portas, autoclismos, ventos, cliques e claques da poiese retórica, ventoinhas que sopram, cadeiras que gemem, estômagos que grunhem e o furtivo mas veemente tic do relógio, que expulsou para a rua sem contemplações fraternas o mais pachorrento tac, por falta de espaço.
Di, tri, quadrissecam-se os pormenores desta noite em tudo igual à que há-de vir, massajam-se os punhos e estalam-se o dedos, que dependente do seu digital desempenho está um retrato, em tudo mais perfeito que este, duma noite homicida que me vai matar mais um pouco, outro pouco igual ao que morro agora mesmo.

Saudações cervejeiras
e participem com comentários ou sugestões naquele que também é o vosso espaço - ya, ya, bite me...

Miguel de Miguel, escrivão e grão-mestre d'A Confraria da Cerveja

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

a heresia é um posto

"Enganas-te."
Num sonho, foi o que me disse deus, só isto e mais nada, sem ai nem ui nem inteligentes ditos, nem mais que a leve ironia dos verbos quando se reflectem, todos em geral e este em particular, em particular me apontou o divino dígito e logo a seguir voltou costas e saiu peremptoriamente. Omnipotências à parte, entrou-me como uma agulha pela têmpora direita, saiu pela esquerda como uma dor fininha e o resultado da ideópsia, esse veio taxativo e com azedume e sem mais quês nem porquês, findo, exacto e inútil.
"Engano-me em quê?", não é?
Mas deus não fala de lógica, nem com lógica, nem com lógicos, aliás, criou o próprio conceito como criou o demónio, por descargo de consciência, e está claro que o homem, como ao demónio, agarrou-se à lógica como a um bote de salvação, apetrechou-a e pintou-a toda de cinzento metálico e outras cores sóbrias, deu-lhe o ar mais eficiente que conseguiu e, ao sétimo dia, admirou a sua obra e viu que ela era boa. A lógica e o bote, meus senhores e minhas senhoras, salvaram-nos do dilúvio, pensámos até que da ignorância, mas os botes não voam e vozes de burro não chegam ao céu, e deus tem o privilégio de lá morar.
Com tanto cá chegámos, depois de uma acusação e uma meia pergunta à boca pequena, aqui estamos à soleira da porta. Se o próximo passo leva à igreja ou ao asilo, decidirão as minhas senhoras e os meus senhores. Falou-me deus ou não, se falou existe, se não, sou louco, e é o que posso espremer desta mirabolice. Se eu fosse um homem honesto, adiantava que o conteúdo da mensagem transporta a evidência divina da divina inexistência. Mas longe de mim dizer para fora o que já em pensamento é pecaminoso.
Boa noite.

Saudações cervejeiras e um duradouro (dura e de ouro, livre-nos A Litrosa de cerveja mole e de outras cores) regresso!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Abandono

Inspira devagar. Enche o peito. Expira e sente o ar exalado a levar com ele as dúvidas que te esganam num encarceramento constante em redor da frágil e alva garganta, pérolas baças dum colar velho demasiado apertado, velho como o mundo que construiste com pequenos pedaços, presos por frágeis fios. Está prestes a quebrar. Estás com medo. Contudo, não sabes se receias que ele se quebre ou que se mantenha imutável, uno, incorrompível.

O firmamento pinta-se suavemente com as mil matizes de azul, com tons que até hoje desconhecia existirem. Observo-as a enlevarem-se sensualmente entre si num dégradé único, numa perfeição vedada às mãos humanas e que me embala no esquecimento de não pensar em nada. Pensar no nada. Não pensar de todo. Pensar nos pequenos pormenores que não consigo juntar para formar a imagem que se obvia perante mim.

A lua timidamente ascende nos céus, roída até restar apenas uma linha curva, dum branco prateado que ofusca as estrelas invisíveis que a rodeiam. Escondem-se. Desviam-se para um segundo plano no qual se protegem de ser. É mais simples, mais fácil não ser, existir à vista de todos sem se deixar ver.

A noite apodera-se dos subúrbios. Nos dias esquecidos e arrastados dum Verão atípico, os subúrbios hibernam num coma profundo. Vazios de alma durante o ano, vazios de sangue durante um mês. As casas ocas têm os estores corridos, como pálpebras cerradas sobre olhos que somente têm utilidade para olhar para dentro e nunca para fora. O cúmulo do egocentrismo ou a devassa da privacidade, depende da perspectiva. Talvez sejam meras expressões sinónimas, promíscuas no significado mas distantes na forma. Um pouco como esta carne que agora falta nos subúrbios, que segue sempre o mesmo caminho, banal, melancólico, mórbido. Os mesmos passos todos os santos dias do profano ano. Os mesmos passos que o vizinho psicopata do 5º esquerdo ou que a adúltera que vive ao fundo da rua. Ir e vir, vir e ir, vir-se com sorte, ir-se no final.

Esta carne superfluamente diferente, cujo interior é invariavelmente igual. Que não foge deste destino de se sacrificar para ter um telhado sobre a cabeça e pão para levar à boca. Que abdicou de pensar para dar resposta às necessidades básicas do ser humano. Passe o constatável pleonasmo de não pensar e manter-se adjectivável como humano.

A noite esgota-se. Todos os traços e pontos de brancura são consumidos pelo preto cada vez mais carregado. As casas mortas encerram-se em celas de escuridão.

Uma chama só ergue-se no seio dum negro impoluto. Assim se faz luz, assim se marca um último suspiro de vida onde tal não era expectável. Esta é a paz suburbana, interrupção sazonal duma guerra travada sem esperança entre o espírito gasto de mil rostos anónimos e um fado a que se entregaram sem ler nas entrelinhas a verdade crua. A rejeição do que poderiam ser. A negação do sonho.

O sonho que ainda hoje guardo. Ilumino-o com as cinzas hedónicas do deleite, fogo que me orienta nas divagações do ócio. Penso no nada. Analgésico para o fardo de pensar. Não posso deixá-lo fugir, a ele, o pensamento. Sei para onde quer ir e por essa porta entreaberta adivinho uma ilusão de óptica que habilmente mascara um muro cinzento e frio.

Não penso... E eventualmente deixar-me-ei ir. Para onde, não sei. Não reside aí a beleza da abstracção?

sábado, 9 de outubro de 2010

A noite minha é dos candeeiros.
A perna cruzada e os braços abertos,
Afundo-me no sofá de cá de fora.
Fora é um vaso grego e jazz nos acordes certos
E ver o negro Tejo de cá de cima.
Uma noite sedutora que devora,
Por bem menos dos trinta dinheiros,
Este homem, no logro de uma rima.
De embutido na ternura do seu ventre,
Entrego-me à dúvida da própria existência.

Se é possível existir sem consciência,
Seja só na trova.
Sem mais prova que me corrobore,
Sem que chore Lisboa a saudade de mim
E, na noite, se encontre outra pista,
Sou a voz de uma fadista apiedando-se,
Dando-se à morte em cada verso,
Em cada verso, ao esquecimento,
Em cada verso de lamento
Ao sono de um mendigo.
Fecho os olhos e abro um sorriso parvo
E deito-me com ele no passeio.

domingo, 12 de setembro de 2010

Há um pequenino homem que está preso.
De dentro do seu inferno pessoal, grita um insolente braço de ferro à desinspiração que o toma, que toma sem querer, afogado nas piscinas de sangue e bílis e quantas outras coisas escuras e repugnantes lhe queiram lá despejar. Entre vómitos e pinotes, vai aplaudindo um desfile de fantasmas interiores, do interior do espírito, do interior do físico, do interior do seu cérebro, profanadores incontinentes do seu hipocampo. Franze o sobrolho quem o viu dar uma nota a Caronte, com o ar iluminado de um homem com propósito. Manda borda fora o velho e rema mais rápido, apresenta-se ao maligno e cá estamos.
Há um pequenino homem que está preso por uma jaula que não existe cá fora, chorando ajoelhado a apoplexia que o entrava. Temos pena da sua miséria, e é quanto temos, que os tempos não estão para mais, na miséria estamos todos e antes se vão as vacas magras e os cintos apertados ficando os apertos do coração e a magreza de espírito. Isso porque nós, que somos livres, preocupamo-nos com o mundo exterior, com a política e a economia e com o pouco mais que vai sendo do mundo agora, mas ele não, ele está numa prisão invisível e de espelhos, só consegue ver para dentro e enlouquece-se em problemas circulares e petições de princípio. E é quando o homem pequenino se transforma (se promoção ou despromoção, depende da perspectiva) num pequenino cão que ladra ao espelho e persegue a cauda, sozinho entre dejecções e ecos de dejecções mentais. Pobre cobarde.

E, sem percebermos como, acabamos num universo completamente diferente. Ele, ela. Outras pessoas, a relva emaciada por baixo das mãos, o tacto das mãos secas emaciado pelo álcool, olhos por trás de vidros que olham olhos congestionados por trás de uma geleia de etafilcon A, uma energia triste. Está de noite, muito de noite. O ar cheira a erva queimada e a sangria e só ele é que está com cara de enterro porque só ele sabe.
É assim que morre um quase amor,
Espezinhado num miradouro em São Pedro de Alcântara.

Miguel de Miguel
Com 999 perdões pela ausência prolongada e mais um pelo texto algo depressivo.
Para desanuviar, uma pergunta do nosso último anónimo.


Como a resposta vem já tardia, serei breve.
Com toda a certeza, cara Anónima (ou Anónimo homossexual). Prefere 91 ou 96?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Caros e mui prezados leitores, entes cuja materialidade creio que de facto exista - obviamente que, das 1400 visitas que temos aqui no marcador, cerca de 1000 foram refreshes das páginas feitas pelos confrades, no entanto estou em crer que ainda haja algures no mundo e, quiçá, em Portugal, quem visite este tugúrio humilde de louvor à Cerveja - venho neste momento comunicar-vos com uma premência aterrorizante e mesmo algo assustadora...
Mais um ano de sacrifício, lágrimas, suor e muitas e muitas Litrosas se avizinha. Aliás, consigo vê-lo neste momento a contornar a esquina, com aquele jeito vacilante e arrastado que costuma ter quando o vemos a aproximar-se, mais rapidamente, por estranho que pareça, do que estaríamos à espera. Enfim, devaneios. Mas esse ano encontra-se em rota de colisão com os nossos rumos, e pouco ou nada podemos fazer, somente respirar fundo e encará-lo de frente, como um forcado encara um touro - ou seja, embriagado ou sob o efeito de estupefacientes.

De qualquer das formas, qual a razão principal desta verborreia desconexa, que surge das brumas do esforço que é sentar-me diante do computador a uma hora tão tardia? A razão prende-se com o facto deste ser o momento perfeito para desmistificar um assunto que tem assumido proporções bíblicas, um tópico de discussão que tem suscitado celeuma, e que tem sido comentado até por vultos da nobre arte de enviar para a atmosfera bitaites sobre um pouco de tudo sem dizer nada, como o são o Pacheco Pereira ou o Miguel Sousa Tavares (ao pé destas eminências, aqui o vosso confrade não é mais do que um aprendiz jovem e imberbe...).

E de súbito, damos uma canelada sem intenção na questão que nos foi colocada, e que merece desde já uma vénia rasgada, até onde a minha flexibilidade me permite (iria mais longe, mas depois aleijava-me e, parecendo que não, ainda é coisa para doer um bocado), não só pela acuidade histológica da questão, que antecipa (em Setembro) conteúdos que nos vão aborrecer daqui a breves meses, como também pela propriedade filosófica e mesmo, atrevo-me a dizer, metafísica de toda a envolvente da pergunta que se segue:

"a barba do gramaça está à espera de cair?"

Atentem na beleza poética que roça, muito ao de leve - um pouco como a minha barba, que roça muito pouco -, a genialidade, que desce à terra dos mortais e toma forma numa frase interrogativa, que, mesmo concisa, reúne todos os atributos necessários para se tornar uma das grandes citações do século XXI, daquelas que os nossos netos irão sacar à Internet para enfeitarem trabalhos da escola feitos na véspera da entrega. Não acha, inefável Anónimo?

Contudo, à parte do aspecto estilístico acima da média que transpira destas palavras, temos de contestar a total veracidade do facto da minha barba estar à espera de cair. E porquê, questionam-se os intrigados leitores? Porque, em boa verdade, no meu rosto existe uma penugem indefinível que no entanto é real, e que, à falta de melhor palavra, posso chamar barba. Só que este real é relativo, na medida em que é um real frágil e aparentemente inexistente.

Mas vamos dar o benefício da dúvida ao Anónimo, considerando que o que eu possuo na face é, de facto, barba. Isto conduz-nos à grande mensagem deste espírito visionário e transcendente. A barba (a minha, a sua caro Confrade, a de todos os leitores, e, quem sabe, também a do próprio e nunca por demais sublimado Anónimo) é um ente com vontade própria, pensamentos, sentimentos, tormentos e mentos (the freshmaker). E mais. Ela espera, como quem espera um autocarro meia hora atrasado, ou uma operação cirúrgica às hemorróidas. Ela aguarda com paciência o momento em que se precipitará para o chão numa debandada, com um grito de revolta, exacerbando toda a raiva contida durante as semanas em que me tem de aturar.

É esta questão que vem alterar todas as concepções vigentes na sociedade moderna e que achei deveras desafiante e relevante. Daí que tenha perguntado à minha barba o que ela achava. Ela infelizmente não estava, tinha ido às Finanças tratar do IRS, mas mandei-lhe uma mensagem para o telemóvel e ela disse-me que isso eram declarações envenenadas de reles línguas viperinas. Ainda assim, fiquei na dúvida, pois ela anda muito amiga do meu cabelo e da minha orelha esquerda, pelo que também considero plausível uma conspiração que resulte num motim, onde o minímo que se pode esperar serão algumas lojas pilhadas e um ou dois carros queimados.

Portanto, para responder à sua dúvida, julgo que não, mas também não posso ter a certeza, isso poderá ser apenas um vulgar boato, um rumor, um murmúrio sussurrado pelas sombras de mistério que envolvem o carácter da minha barba - boato esse que desde já passo a espalhar, pois com estas coisas mais vale atacar primeiro do que ser atacado (vais ver barba, a mim não me apanhas a dormir...).

Todavia, também eu me interrogo, apesar das minhas dúvidas se restringirem a um nível mais mundano. Como sabia antes deste post, ínclito Anónimo, que há já alguns (valentes...) dias que não dou caça à minha imberbe barba (passe o pleonasmo, e já agora, mais uma Cerveja... [glu...glu...glu...] já está), tendo em conta que há mais de 3 semanas que me encontro num estado de repouso activo, num cantinho, lá no extremo noroeste do País, mais conhecido por Caminha? Você acaba por se elevar, com essa capacidade de vidência e de adivinhação, a um nível de omnisciência só alcançável por Mourinho e Deus (e este último só de vez em quando), o que para mim me leva a repensar tudo o que sei sobre a matéria e as dimensões onde vivemos - aqui está uma discussão que penso que seria muito interessante, especialmente perante um par de Litrosas (Ámen!), não acha insigne Anónimo?


Saudações Cervejeiras
João Gramaça, Grão Mestre e Presidente da Mesa d'A Confraria da Cerveja

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Caríssimos!
Tenho a pergunta de mais um Anónimo para responder, mas antes devo dar conta de uma coisa muito, muito mais importante. Chego até vós com algo que me transtorna, que me massacra e escandaliza o espírito - o programa "À Procura de um Sonho".
Amigos, atingimos um novo fundo, um novo patamar de mediocridade em Portugal. Somos conhecidos por nos acharmos muito in quando na verdade  sermos intolerantes, impacientes, ingratos, insensatos, inconsequentes, invejosos, ingnorantes, ingoístas, inalfabetos, inconomicamente instáveis, infim... o que eu não sabia é que, agora, somos um povo in-bonito. É verdade, senhoras e senhores, o visionamento do programa suprareferido deixa, em essência, aprender uma e uma só coisa: os jovens supostamente mais bonitos do nossos país são não somente todos os ins anteriormente enumerados - que lhes seriam perdoáveis se houvessem ao menos o único atributo básico que lhes é exigido - não! são, na generalidade, feios. E isso choca-me. E isso abala-me. E isso gela-me.

E é gelado de exasperação e desconsolo o que vos aconselho hoje. Experimentem, com ênfase no mentem (não é de mentir, é mesmo de menta, fica óptimo com menta). Não? Ok, então agora a sério. (pigarro)

E é gelado de exasperação e desconsolo (por tudo quanto antes foi escrito) que me dirijo ao nosso(a) Anónimo(a) de hoje (que é de ontem, mas a minha vida não é só isto!). Eis a pergunta



Agora, eu sei que somos mauzinhos com os Anónimos, neste blog. Achincalhamo-los, maltratamo-los, gozamo-los... quem sabe até se eles gostam de tanto vitupério. Nós gostamos.
A questão é que esta pergunta poderia ser inocente e é assim que a trataremos.
Portanto, sem gozos nem retóricas, sim, o Miguel e o Gramaça namoram. Não um com o outro, como será evidente à qualquer pessoa que não tenha 2% da sua massa corporal em massa castanha em vez de cinzenta e branca no interior do crânio. Genericamente. Falo por mim, não há presentemente nenhuma donzela que me haja concedido namoro. Quanto ao confrade João Gramaça, considero que a sua resposta se encontra clara aqui. Caso haja, entretanto, algum desenvolvimento, estou certo de que o confrade terá todo o gosto em esclarecê-lo via [UPDATE]. Satisfeito(a)?

Finalizando, gostaria de vos apresentar o excerto de uma conversa com uma nova amiga, em que nome revelado poderá ou não ser real.

Rita diz:
sua nao dele?!

 miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
x)
esquece, isto só funciona oralmente
ok, isto podia ter saído melhor
isso que estás a pensar... não, não funciona só oralmente

Rita diz:
looool

miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
tb funciona manualmente
ou vaginalmente

Rita diz:
que era o que querias ter dito com a frase?


miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
Às vezes até funciona só com a mente

Rita diz:
isso escuso de saber oh...

miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
xD a sério, esta vai tanto pro blog

E cá está.
Sem mais de momento, despeço-me na esperança de um mundo melhor.
Abraços e lambidelas.

Miguel de Miguel, Escrivão e Grão Mestre d'A Confraria da Cerveja

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

"Isto é um grupo de angariação para orgias?"

Bravo, caro leitor. Mais uma vez, o anonimato eleva-se das sombras em que esconde o seu talento, brindando-nos com uma questão de uma pertinência rara nos dias que correm. De facto, é impressionante a lucidez dos nossos leitores, que poderiamos colocar em causa dado darem-se ao trabalho de visitar o blog, mas que teima em ser demonstrada na forma de perguntas recheadas de intencionalidade e subentendidos.

Daí que vá responder à sua dúvida, excelso anónimo, tão merecível como qualquer outra - até mais, dado evidenciar uma sensibilidade que me extasiou. Aliás, neste momento ainda estou ligeiramente boquiaberto, o que também poderá ser da terrível dor de dentes que me tolda o raciocínio há três dias (não caro confrade Miguel de Miguel, infelizmente não tenho a Morfina, apenas paracetamol e nicotina, fracos enganos para o corpo e para a mente). Contudo, antes de lhe responder, quero fazer um pouco de serviço público (como dizia o outro...) e vou partilhar convosco o que descobri há 5 minutos atrás quando fui pesquisar a entrada "orgia" no dicionário. Não em qualquer um. Num dicionário da Porto Editora, o que é prestígio. Pois nisto dos dicionários não se brinca, ou é bom ou não vale a pena. Ponderando bem as coisas, comprar um dicionário não é bem a mesma coisa que comprar um kg de bifes de perú, é necessária qualidade (o que não implica que os bifes não tenham de a ter... enfim, talvez não tenha sido a melhor comparação, vamos antes usar uma lata de atum). Portanto, o que lá dizia era o seguinte:

Orgia
1.
festa desregrada, em que se come e bebe em excesso e/ou onde há promiscuidade sexual; bacanal

2.
figurado devassidão, licenciosidade

3.
figurado excesso, desregramento

4.
figurado profusão, abundância

5.
figurado desordem, anarquia

De apontar também que este é um nome feminino, e que tem a sua origem no grego "órgia", que significava "festa de Baco". Ora, como se costuma dizer, esta definição dá pano para mangas, e também para umas calças e uma fronha para a almofada...Vamos por pontos. Em primeiro lugar, obviamente que gostaríamos de organizar festas onde inúmeras pessoas diferentes, com ideias, opiniões e palavras próprias, se juntem, unidas sob um denominador comum: o amor pel'A Cerveja. O que, per se, é algo diferente duma festa desregrada onde se come e bebe em excesso e onde existe promiscuidade sexual. Nestes requisitos, o único que talvez atinjamos é o de beber em excesso, e mesmo assim inconscientemente, face ao facto de haver poucas coisas que deslizem tão bem pela nossa garganta como a pura corrente de espuma branca e de ouro espirituoso d'A Cerveja, tão bem que por vezes nem nos damos conta de que já vamos na terceira ou quarta Litrosa (Ámen !). E, nessa altura, só nesse momento, talvez nos deparemos com o 4º significado, este figurado: o da abundância, profusão. Sendo este o mais simpático de todos, pelo menos creio eu. Em segundo lugar, prometemos desde já que, nas nossas reuniões não haverá comida em excesso, até porque actualmente os restaurantes também andam em crise, além do facto de que temos de ter cuidado com a diabetes mellitus e com a aterosclerose. Em terceiro lugar, é interessante constatar que a nossa Confraria seja conotada com promiscuidade sexual. Não que não fosse esse o nosso desejo (perdoe-me a ousadia de falar por si, caro confrade), mas infelizmente tal não é a nossa sorte, nem sequer o nosso objectivo. Quanto ao sinónimo "bacanal", não sei se será realmente necessária uma angariação para levar a cabo tão chã empreitada... Se bem que este substantivo tem sido injustiçado, sucessivamente vilipendiado e associado a práticas indecorosas, o que certamente tem deixado o deus Baco às voltas no Olimpo, numa inquietação apenas acalmada pelas visitas domiciliárias de um par de ninfas contratadas.
Por fim, perclaro anónimo, vou-lhe responder. Não, isto não é para fazer uma angariação para orgias. O nosso propósito é a formação de um grupo de pessoas, sob o estandarte d'A Litrosa, que se juntem num clima de amizade, sentados perante um exército de garrafas, umas vazias para nosso deleite, outras ainda repletas duma alma que se eleva, cheia de força. E renego em absoluto a ideia de fazermos angariação do que quer que seja para o que quer que seja. A única angariação que faremos é a de palavras, pessoas, pensamentos. E essas constituem o verdadeiro motor que levará a Confraria da Cerveja no sentido dum futuro que se pretende sublime.
E recheado com o prazer orgiástico de refrescar o paladar contigo, oh amada Litrosa.

Saudações Cervejeiras,
João Gramaça, Grão Mestre e Presidente da Mesa d'A Confraria da Cerveja

[UPDATE]
Falou e disse, o Confrade, com a boca tão cheia de eloquência quanto cheia estará a cabeça do Anónimo de, enfim, coisa nenhuma. Quanto à dor de dentes, lamento-a como se de minha se tratasse, grande amigo, e minha quase que é, quanto quase incomodam os Anónimos do mundo. Arejemo-los (aos dentes, não aos Anónimos, esses cheiram mal, atrevo-me) em gargalhadas à sua custa (sua, deles, dos Anónimos do mundo, não sua, confrade, nem dos dentes, A Litrosa os banhe sempre na sua protecção!).
Permita-me que, do maravilhoso tecido de verbo com que honrou o nosso caro Anónimo, tenha extraído a hilariante cena de um qualquer Anónimo de capa preta e um saco de papel enfiado pela montra abaixo e tacteando atarantado o vazio enquanto era vigorosamente e repetidamente agredido na cabeça pelo referido kg de bifes de perú - perdoem-me o sadismo e a clonixina, mas desmanchei-me a rir.

Sem mais de importante a acrescentar, e para remissão da maldade, deixo alguns sítios cibernáuticos que, confesso, não tive tempo de explorar mas que considero útil em tão empolgante jornada.
LUTE POR AQUILO EM ACREDITA, ANÓNIMO! EM FRENTE!

Aqui, aqui ou aqui

Espero ter sido útil.
(cheio de dores pré-) Cordialmente,
Miguel de Miguel, Grão-Mestre e Escrivão d'A Confraria da Cerveja

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nos Braços de Morfina

Caros amigos, chego até vós com uma história de amor.
Acordei com ela, num dia quente de agosto. Acariciava-me o corpo com milhões de pequeninas mãos, pequeninos braços que conciliam a dor que sabia dever estar a sentir. Abraçou-se a cada nervo de mim e quem implorou para me apaixonar por ela fui eu - e ainda dizem que se conquista um homem pelo estômago. Não, é mesmo por via parentérica, com a fome posso eu bem, minha gente... mas a Morfina... ai a Morfina, minha gente, é o menos injusto substituto que eu conheço para a Cerveja.
É sentir o seu toque inebriante, a indolência dos lábios espraiando-se na despreocupação de um sorriso. Ai, como descrever o amor?


Palavras para quê?

Miguel de Miguel

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ensaio sobre a vida

A noite beija o dia numa explosão de sensualidade, apenas possível graças ao véu molhado que cobre a indefinição em que ambos se abraçam. O mundo está parado, num momento raro de contemplação. Parado numa profunda inspiração antes dum inevitável mergulho, que se antevê desesperado e sem retorno.
Permitam-me a veleidade de pousar o olhar numa figura indistinta ao longe... Aproximemo-nos, pé ante pé, desta sombra prostrada pelo cansaço da realidade, num esforço retórico para se manter acordado. O céu veste-se num tom de cinzento carregado, inusitada escolha para um dia perdido nos meados de Agosto, altura curiosa, dado que nunca se percebe muito bem em que ritmo louco anda o tempo. Nunca se percebe muito bem se hoje é hoje ou se já é amanhã. Nunca se percebe muito bem qual o dia da semana em que estamos - mas também, para quê? Não somos escravos das datas, das horas, dos minutos, durante os longos meses de exílio, enclausurados, oprimidos pelas obrigações que nos extraem quaisquer réstias de inspiração, nos chupam até ao tutano com a raiva de nos submeter à sua vontade? Afinal o que somos para lá daquilo que fazemos? Ao fim ao cabo, só podemos conhecer alguém através das suas acções, no sentido lato da palavra - o que diz, o que faz, o que escreve... Só a partir daí podemos deduzir o que alguém pensa, o que sente, o que sufoca dentro de si...
Daí que dedique a minha atenção a este ser, isolado na varanda do seu desassossego, algures numa outra dimensão ou então apenas num recanto qualquer do nosso pequeno vasto mundo. Num óbvio sinal de delírio, ou simplesmente de egocentrismo, vou arrogantemente mascarar-me de omnisciente e tentar desvendar o que ele (pois é dum ele que se trata) resguarda dentro de si do vento frio e cortante que agora se levanta e do sono que se apodera dele, paulatinamente, obedecendo ao compasso das gotas de água que, numa cadência repetitiva, o embalam num entorpecimento assaz estranho e agradável.
Ele é um vulto dum passado recente, ele é alguém que se perde nos pensamentos que o afundam num pânico sem precedentes. Ele é um pobre desgarrado, ele é alguém que se deixa confundir pelos labirínticos pântanos onde é obrigado a tentar encontrar um caminho, um trilho para a promessa que se esconde na bruma que domina o seu horizonte. O que é ele? O que está aqui a fazer? Nem ele sabe. Duvido que alguém saiba.
Olho pelos olhos dele, partilho a sua visão deturpada pelo progressivo cerrar das pálpebras. Vejo as gotas de água num equilíbrio de ballet sobre as folhas dum limoeiro, retorcido pelas intempéries, desfigurado pelos nós da madeira velha e ainda assim resistente. Vejo um regato a precipitar-se, numa pressa eterna, por entre os seixos que os anos tornaram lisos e polidos, obras de joalharia engendradas pelo líquido cristalino que com ele traz um rumor da pureza das nascentes que brotam dum seio de granito. Vejo montes imponentes, sob um capuz de anciãs árvores numa paz inquebrável, enquanto farrapos de névoa tacteante se retiram para o refúgio da atmosfera. Vejo o balir das ovelhas que pastam, inocentes e desdenhosas do universo de carros, máquinas, fumo - só os tufos de erva viçosa e tenra lhes interessam, descobertos por entre as colunas de pedra que sustentam vinhas plantadas pelos avós dos avós dos donos, colunas que se erguem como memoriais da simbiose entre a Natureza e o Homem. Vejo uma rara alegria, uma alegria que aquece uma alma enregelada pelos cuidados, pelas preocupações, pelo cansaço de não viver, uma alegria que não via há muito tempo, há demasiado tempo. Vejo a cristalina e quase infantil alegria de sarar a fadiga com duas inspirações profundas dum ar com um indelével sabor a pinheiros e eucaliptos, de lavar os olhos com um instante de uma natural sublimação, de uma verdura extasiante, de um orgasmo contemplativo.
Vejo o sorriso que nasce nos teus olhos. Vejo a esperança, no coração dele, de poder ver, um dia, esse sorriso ser enriquecido pelo doce curvar dos teus lábios. Vejo o anelo que sente, mitigado num refúgio que sabe que terá de terminar - não há curas definitivas, apenas um adiar do inadiável.


"What is this life if, full of care,
We have no time to stand and stare?"


Uma vida assim não é nada, é um vazio, um vácuo que nos engole e nos expurga de todo o desejo de felicidade. Esta é a minha resposta. Peço perdão pelo atrevimento de ir mais além do que foi William Henry Davies (para os que não conhecem, um Alberto Caeiro galês, e o autor desta questão num dos seus poemas, relembrada por um dos nossos leitores), que considerava que a vida seria pobre se não tivéssemos o tempo para olhar para o mundo em nosso redor, para as maravilhas que temos a sorte de poder apreciar. Contudo, qual o sentido de viver uma vida pobre, se apenas temos direito a uma? Uma vida pobre é um eufemismo, é o mesmo que não ter nenhuma...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O povo que tocou a Lua e depois adormeceu.

Estava-se num tempo agora esquecido, que fica sempre do antesequente só quanto fizerem subsequentemente lembrar os avós e as perguntas espertas.
Recorde-se, então, a fome, o frio e a escuridão que povoavam o rigor dos invernos de Nwangombo, as noites em que todos se despediam e recolhiam ao cassado abrigo de palha e lama das suas casas sem saber quantos sairiam na manhã seguinte. Aninhavam-se os mais pequenos entre o calor das ovelhas que eram, por aquelas paragens, os únicos animais que conseguiam resistir ao corte do frio. Especificamente aquelas, com a sua misteriosa lã, branca cor da neve, de dia, de um preto brilhante de céu estrelado, à noite. A quem possa perguntar, durante a alvorada e o lusco-fusco tinham a cor de amêndoa ralada e cheiravam consistentemente a ovelhas, que normais tinham que ser nalguma coisa. Se durante o resto do ano passavam a noite no estábulo da aldeia, quando fazia frio as gentes atafulhavam-nas dentro de casa, para darem calor. A Luna adorava-as, dizia que eram as mais bonitas do mundo, mesmo sem nunca ter saído da sua aldeia. Não precisava, tinham-na mantido viva ao longo de 6 invernos e gostava delas tanto como dos seus próprios pais. E foi por isso que, num determinado dia (à noite) de dezembro, enquanto o frio mordia ainda com os molares, Luna saiu de mansinho da sua pequena cabana, nos braços uma ovelha pequenina. Esta pequenina rebeldia, justifica-a o facto de, nesse ano, a sua família ter conseguido uma criação anormalmente grande de ovelhas da Lua (era assim que se chamavam, ninguém sabia muito bem porquê). Ora, estando a cabana demasiado cheia, acordou com o balido aflito de uma ovelha bebé que deu por si apertada contra um canto, sem conseguir respirar, perdoem-me a apoquentação.
Ao que interessa, ao sair e pôr os pés descalços nas ervas quebradiças da primeira geada, a Luna deixou de sentir nos braços o suave peso da pequenina ovelha, sentiu-a debater-se e depois flutuar, misturando a sua lã preta no preto frio da noite. Era tão bonito... e, do alto dos seus quase 7 anos, Luna pensou. Percebeu que as todas as superstições têm uma história, que por vezes esquece-se a história mas não a superstição, como a que têm os aldeões de levar todas as noites as ovelhas no estábulo antes de anoitecer. E achou que tudo era ligado, se ao menos houvesse uma criança com paciência de adulto ou um adulto com espírito de criança; poderemos imaginar nós agora como seria previsível que a neve atraísse a neve e a noite brilhante de estrelas o brilhante negro da lã de uma ovelha da Lua, ou mesmo como trabalhou a providência ao colocar nas mãos de uma menina pequena chamada Luna uma pequena ovelha da Lua, ou mesmo o que provocariam as duas ainda hoje. Mas o seu a seu tempo, se no tempo esquecido de que falamos não se sabia do de hoje, também não se saberá a meio de uma história o seu fim.
Admirava então a pequena a magia da ovelhinha e tudo se colocou no lugar ideal. O frio, a ovelha, a Lua, a noite, tudo se conspirou para que um espírito de criança colasse tudo com uma pitada de magia.
O sol brilha muito e por isso é muito quente, mas a Lua também brilha. Até aposto que é suficientemente quente para que, se trouxéssemos cá para baixo um bocadinho, iluminar e aquecer toda a aldeia. Podíamos ir lá buscá-la de noite, quando as ovelhas conseguem flutuar pelo ar. Levávamos carroças e trazíamos uns bocadinhos cá para baixo.
Falou assim na manhã seguinte às gentes da aldeia e ninguém duvidou dela, que a magia das crianças é uma coisa muito séria e, fosse como fosse, o frio convencia a tentar. Em três dias, construíram-se três carroças feitas integralmente de ébano, podia ser que ajudasse as ovelhas, a noite atrai a noite. E na do quarto dia, designaram-se três carroceiros, três homens com picaretas e três mulheres com três sacos e três sandes cada uma, amarraram-se a cada carroça três grandes ovelhas da Lua, e o mundo viu por momentos três carroças pretas com três sacos pendurados e puxadas por três ovelhas pretas cada uma contrastar-se contra o brilho da Lua, enquanto que os carroceiros riam em Oh! Oh! Oh!’s de contentamento. Se a este conto acrescentou alguém um ponto, não será da nossa conta, quem tiver ponta de certeza jure que o pai natal não existe e quem tiver olho vivo conte o que de extraordinário por lá aconteceu, que a Lua fica longe e de cá de baixo não se distingue senão a sua redondez. O certo é que, de manhã, chegaram cá abaixo três vezes três sacos de Lua e quem lá os tinha ido buscar. Vinham ainda quentes, brilhantes não, mas toda a gente sabe que a Lua brilha é de noite. E é facto que, chegada a noite, juntaram-se num monte a meio da aldeia os pedaços de Lua e estes iluminaram e aqueceram todo esse Inverno e os dois que o seguiram, perdendo depois a propriedade.
 Mais que isto, não se sabe. O que se sabe é que, de três em três anos, mais coisa, menos coisa, lá por altura do Natal, acontece um fenómeno chamado “El Niño” que provoca temperaturas mais altas e outras alterações no clima, mas isso é coisa de gente entendida. Mais uma vez, quem souber que jure mas, cá entre nós, eu acho que a Luna não se ia importar muito que a tenham confundido com um menino, não acham?