domingo, 12 de setembro de 2010

Há um pequenino homem que está preso.
De dentro do seu inferno pessoal, grita um insolente braço de ferro à desinspiração que o toma, que toma sem querer, afogado nas piscinas de sangue e bílis e quantas outras coisas escuras e repugnantes lhe queiram lá despejar. Entre vómitos e pinotes, vai aplaudindo um desfile de fantasmas interiores, do interior do espírito, do interior do físico, do interior do seu cérebro, profanadores incontinentes do seu hipocampo. Franze o sobrolho quem o viu dar uma nota a Caronte, com o ar iluminado de um homem com propósito. Manda borda fora o velho e rema mais rápido, apresenta-se ao maligno e cá estamos.
Há um pequenino homem que está preso por uma jaula que não existe cá fora, chorando ajoelhado a apoplexia que o entrava. Temos pena da sua miséria, e é quanto temos, que os tempos não estão para mais, na miséria estamos todos e antes se vão as vacas magras e os cintos apertados ficando os apertos do coração e a magreza de espírito. Isso porque nós, que somos livres, preocupamo-nos com o mundo exterior, com a política e a economia e com o pouco mais que vai sendo do mundo agora, mas ele não, ele está numa prisão invisível e de espelhos, só consegue ver para dentro e enlouquece-se em problemas circulares e petições de princípio. E é quando o homem pequenino se transforma (se promoção ou despromoção, depende da perspectiva) num pequenino cão que ladra ao espelho e persegue a cauda, sozinho entre dejecções e ecos de dejecções mentais. Pobre cobarde.

E, sem percebermos como, acabamos num universo completamente diferente. Ele, ela. Outras pessoas, a relva emaciada por baixo das mãos, o tacto das mãos secas emaciado pelo álcool, olhos por trás de vidros que olham olhos congestionados por trás de uma geleia de etafilcon A, uma energia triste. Está de noite, muito de noite. O ar cheira a erva queimada e a sangria e só ele é que está com cara de enterro porque só ele sabe.
É assim que morre um quase amor,
Espezinhado num miradouro em São Pedro de Alcântara.

Miguel de Miguel
Com 999 perdões pela ausência prolongada e mais um pelo texto algo depressivo.
Para desanuviar, uma pergunta do nosso último anónimo.


Como a resposta vem já tardia, serei breve.
Com toda a certeza, cara Anónima (ou Anónimo homossexual). Prefere 91 ou 96?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Caros e mui prezados leitores, entes cuja materialidade creio que de facto exista - obviamente que, das 1400 visitas que temos aqui no marcador, cerca de 1000 foram refreshes das páginas feitas pelos confrades, no entanto estou em crer que ainda haja algures no mundo e, quiçá, em Portugal, quem visite este tugúrio humilde de louvor à Cerveja - venho neste momento comunicar-vos com uma premência aterrorizante e mesmo algo assustadora...
Mais um ano de sacrifício, lágrimas, suor e muitas e muitas Litrosas se avizinha. Aliás, consigo vê-lo neste momento a contornar a esquina, com aquele jeito vacilante e arrastado que costuma ter quando o vemos a aproximar-se, mais rapidamente, por estranho que pareça, do que estaríamos à espera. Enfim, devaneios. Mas esse ano encontra-se em rota de colisão com os nossos rumos, e pouco ou nada podemos fazer, somente respirar fundo e encará-lo de frente, como um forcado encara um touro - ou seja, embriagado ou sob o efeito de estupefacientes.

De qualquer das formas, qual a razão principal desta verborreia desconexa, que surge das brumas do esforço que é sentar-me diante do computador a uma hora tão tardia? A razão prende-se com o facto deste ser o momento perfeito para desmistificar um assunto que tem assumido proporções bíblicas, um tópico de discussão que tem suscitado celeuma, e que tem sido comentado até por vultos da nobre arte de enviar para a atmosfera bitaites sobre um pouco de tudo sem dizer nada, como o são o Pacheco Pereira ou o Miguel Sousa Tavares (ao pé destas eminências, aqui o vosso confrade não é mais do que um aprendiz jovem e imberbe...).

E de súbito, damos uma canelada sem intenção na questão que nos foi colocada, e que merece desde já uma vénia rasgada, até onde a minha flexibilidade me permite (iria mais longe, mas depois aleijava-me e, parecendo que não, ainda é coisa para doer um bocado), não só pela acuidade histológica da questão, que antecipa (em Setembro) conteúdos que nos vão aborrecer daqui a breves meses, como também pela propriedade filosófica e mesmo, atrevo-me a dizer, metafísica de toda a envolvente da pergunta que se segue:

"a barba do gramaça está à espera de cair?"

Atentem na beleza poética que roça, muito ao de leve - um pouco como a minha barba, que roça muito pouco -, a genialidade, que desce à terra dos mortais e toma forma numa frase interrogativa, que, mesmo concisa, reúne todos os atributos necessários para se tornar uma das grandes citações do século XXI, daquelas que os nossos netos irão sacar à Internet para enfeitarem trabalhos da escola feitos na véspera da entrega. Não acha, inefável Anónimo?

Contudo, à parte do aspecto estilístico acima da média que transpira destas palavras, temos de contestar a total veracidade do facto da minha barba estar à espera de cair. E porquê, questionam-se os intrigados leitores? Porque, em boa verdade, no meu rosto existe uma penugem indefinível que no entanto é real, e que, à falta de melhor palavra, posso chamar barba. Só que este real é relativo, na medida em que é um real frágil e aparentemente inexistente.

Mas vamos dar o benefício da dúvida ao Anónimo, considerando que o que eu possuo na face é, de facto, barba. Isto conduz-nos à grande mensagem deste espírito visionário e transcendente. A barba (a minha, a sua caro Confrade, a de todos os leitores, e, quem sabe, também a do próprio e nunca por demais sublimado Anónimo) é um ente com vontade própria, pensamentos, sentimentos, tormentos e mentos (the freshmaker). E mais. Ela espera, como quem espera um autocarro meia hora atrasado, ou uma operação cirúrgica às hemorróidas. Ela aguarda com paciência o momento em que se precipitará para o chão numa debandada, com um grito de revolta, exacerbando toda a raiva contida durante as semanas em que me tem de aturar.

É esta questão que vem alterar todas as concepções vigentes na sociedade moderna e que achei deveras desafiante e relevante. Daí que tenha perguntado à minha barba o que ela achava. Ela infelizmente não estava, tinha ido às Finanças tratar do IRS, mas mandei-lhe uma mensagem para o telemóvel e ela disse-me que isso eram declarações envenenadas de reles línguas viperinas. Ainda assim, fiquei na dúvida, pois ela anda muito amiga do meu cabelo e da minha orelha esquerda, pelo que também considero plausível uma conspiração que resulte num motim, onde o minímo que se pode esperar serão algumas lojas pilhadas e um ou dois carros queimados.

Portanto, para responder à sua dúvida, julgo que não, mas também não posso ter a certeza, isso poderá ser apenas um vulgar boato, um rumor, um murmúrio sussurrado pelas sombras de mistério que envolvem o carácter da minha barba - boato esse que desde já passo a espalhar, pois com estas coisas mais vale atacar primeiro do que ser atacado (vais ver barba, a mim não me apanhas a dormir...).

Todavia, também eu me interrogo, apesar das minhas dúvidas se restringirem a um nível mais mundano. Como sabia antes deste post, ínclito Anónimo, que há já alguns (valentes...) dias que não dou caça à minha imberbe barba (passe o pleonasmo, e já agora, mais uma Cerveja... [glu...glu...glu...] já está), tendo em conta que há mais de 3 semanas que me encontro num estado de repouso activo, num cantinho, lá no extremo noroeste do País, mais conhecido por Caminha? Você acaba por se elevar, com essa capacidade de vidência e de adivinhação, a um nível de omnisciência só alcançável por Mourinho e Deus (e este último só de vez em quando), o que para mim me leva a repensar tudo o que sei sobre a matéria e as dimensões onde vivemos - aqui está uma discussão que penso que seria muito interessante, especialmente perante um par de Litrosas (Ámen!), não acha insigne Anónimo?


Saudações Cervejeiras
João Gramaça, Grão Mestre e Presidente da Mesa d'A Confraria da Cerveja

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Caríssimos!
Tenho a pergunta de mais um Anónimo para responder, mas antes devo dar conta de uma coisa muito, muito mais importante. Chego até vós com algo que me transtorna, que me massacra e escandaliza o espírito - o programa "À Procura de um Sonho".
Amigos, atingimos um novo fundo, um novo patamar de mediocridade em Portugal. Somos conhecidos por nos acharmos muito in quando na verdade  sermos intolerantes, impacientes, ingratos, insensatos, inconsequentes, invejosos, ingnorantes, ingoístas, inalfabetos, inconomicamente instáveis, infim... o que eu não sabia é que, agora, somos um povo in-bonito. É verdade, senhoras e senhores, o visionamento do programa suprareferido deixa, em essência, aprender uma e uma só coisa: os jovens supostamente mais bonitos do nossos país são não somente todos os ins anteriormente enumerados - que lhes seriam perdoáveis se houvessem ao menos o único atributo básico que lhes é exigido - não! são, na generalidade, feios. E isso choca-me. E isso abala-me. E isso gela-me.

E é gelado de exasperação e desconsolo o que vos aconselho hoje. Experimentem, com ênfase no mentem (não é de mentir, é mesmo de menta, fica óptimo com menta). Não? Ok, então agora a sério. (pigarro)

E é gelado de exasperação e desconsolo (por tudo quanto antes foi escrito) que me dirijo ao nosso(a) Anónimo(a) de hoje (que é de ontem, mas a minha vida não é só isto!). Eis a pergunta



Agora, eu sei que somos mauzinhos com os Anónimos, neste blog. Achincalhamo-los, maltratamo-los, gozamo-los... quem sabe até se eles gostam de tanto vitupério. Nós gostamos.
A questão é que esta pergunta poderia ser inocente e é assim que a trataremos.
Portanto, sem gozos nem retóricas, sim, o Miguel e o Gramaça namoram. Não um com o outro, como será evidente à qualquer pessoa que não tenha 2% da sua massa corporal em massa castanha em vez de cinzenta e branca no interior do crânio. Genericamente. Falo por mim, não há presentemente nenhuma donzela que me haja concedido namoro. Quanto ao confrade João Gramaça, considero que a sua resposta se encontra clara aqui. Caso haja, entretanto, algum desenvolvimento, estou certo de que o confrade terá todo o gosto em esclarecê-lo via [UPDATE]. Satisfeito(a)?

Finalizando, gostaria de vos apresentar o excerto de uma conversa com uma nova amiga, em que nome revelado poderá ou não ser real.

Rita diz:
sua nao dele?!

 miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
x)
esquece, isto só funciona oralmente
ok, isto podia ter saído melhor
isso que estás a pensar... não, não funciona só oralmente

Rita diz:
looool

miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
tb funciona manualmente
ou vaginalmente

Rita diz:
que era o que querias ter dito com a frase?


miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
Às vezes até funciona só com a mente

Rita diz:
isso escuso de saber oh...

miguel de miguel... http://aconfrariadacerveja.blogspot.com/ diz:
xD a sério, esta vai tanto pro blog

E cá está.
Sem mais de momento, despeço-me na esperança de um mundo melhor.
Abraços e lambidelas.

Miguel de Miguel, Escrivão e Grão Mestre d'A Confraria da Cerveja

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

"Isto é um grupo de angariação para orgias?"

Bravo, caro leitor. Mais uma vez, o anonimato eleva-se das sombras em que esconde o seu talento, brindando-nos com uma questão de uma pertinência rara nos dias que correm. De facto, é impressionante a lucidez dos nossos leitores, que poderiamos colocar em causa dado darem-se ao trabalho de visitar o blog, mas que teima em ser demonstrada na forma de perguntas recheadas de intencionalidade e subentendidos.

Daí que vá responder à sua dúvida, excelso anónimo, tão merecível como qualquer outra - até mais, dado evidenciar uma sensibilidade que me extasiou. Aliás, neste momento ainda estou ligeiramente boquiaberto, o que também poderá ser da terrível dor de dentes que me tolda o raciocínio há três dias (não caro confrade Miguel de Miguel, infelizmente não tenho a Morfina, apenas paracetamol e nicotina, fracos enganos para o corpo e para a mente). Contudo, antes de lhe responder, quero fazer um pouco de serviço público (como dizia o outro...) e vou partilhar convosco o que descobri há 5 minutos atrás quando fui pesquisar a entrada "orgia" no dicionário. Não em qualquer um. Num dicionário da Porto Editora, o que é prestígio. Pois nisto dos dicionários não se brinca, ou é bom ou não vale a pena. Ponderando bem as coisas, comprar um dicionário não é bem a mesma coisa que comprar um kg de bifes de perú, é necessária qualidade (o que não implica que os bifes não tenham de a ter... enfim, talvez não tenha sido a melhor comparação, vamos antes usar uma lata de atum). Portanto, o que lá dizia era o seguinte:

Orgia
1.
festa desregrada, em que se come e bebe em excesso e/ou onde há promiscuidade sexual; bacanal

2.
figurado devassidão, licenciosidade

3.
figurado excesso, desregramento

4.
figurado profusão, abundância

5.
figurado desordem, anarquia

De apontar também que este é um nome feminino, e que tem a sua origem no grego "órgia", que significava "festa de Baco". Ora, como se costuma dizer, esta definição dá pano para mangas, e também para umas calças e uma fronha para a almofada...Vamos por pontos. Em primeiro lugar, obviamente que gostaríamos de organizar festas onde inúmeras pessoas diferentes, com ideias, opiniões e palavras próprias, se juntem, unidas sob um denominador comum: o amor pel'A Cerveja. O que, per se, é algo diferente duma festa desregrada onde se come e bebe em excesso e onde existe promiscuidade sexual. Nestes requisitos, o único que talvez atinjamos é o de beber em excesso, e mesmo assim inconscientemente, face ao facto de haver poucas coisas que deslizem tão bem pela nossa garganta como a pura corrente de espuma branca e de ouro espirituoso d'A Cerveja, tão bem que por vezes nem nos damos conta de que já vamos na terceira ou quarta Litrosa (Ámen !). E, nessa altura, só nesse momento, talvez nos deparemos com o 4º significado, este figurado: o da abundância, profusão. Sendo este o mais simpático de todos, pelo menos creio eu. Em segundo lugar, prometemos desde já que, nas nossas reuniões não haverá comida em excesso, até porque actualmente os restaurantes também andam em crise, além do facto de que temos de ter cuidado com a diabetes mellitus e com a aterosclerose. Em terceiro lugar, é interessante constatar que a nossa Confraria seja conotada com promiscuidade sexual. Não que não fosse esse o nosso desejo (perdoe-me a ousadia de falar por si, caro confrade), mas infelizmente tal não é a nossa sorte, nem sequer o nosso objectivo. Quanto ao sinónimo "bacanal", não sei se será realmente necessária uma angariação para levar a cabo tão chã empreitada... Se bem que este substantivo tem sido injustiçado, sucessivamente vilipendiado e associado a práticas indecorosas, o que certamente tem deixado o deus Baco às voltas no Olimpo, numa inquietação apenas acalmada pelas visitas domiciliárias de um par de ninfas contratadas.
Por fim, perclaro anónimo, vou-lhe responder. Não, isto não é para fazer uma angariação para orgias. O nosso propósito é a formação de um grupo de pessoas, sob o estandarte d'A Litrosa, que se juntem num clima de amizade, sentados perante um exército de garrafas, umas vazias para nosso deleite, outras ainda repletas duma alma que se eleva, cheia de força. E renego em absoluto a ideia de fazermos angariação do que quer que seja para o que quer que seja. A única angariação que faremos é a de palavras, pessoas, pensamentos. E essas constituem o verdadeiro motor que levará a Confraria da Cerveja no sentido dum futuro que se pretende sublime.
E recheado com o prazer orgiástico de refrescar o paladar contigo, oh amada Litrosa.

Saudações Cervejeiras,
João Gramaça, Grão Mestre e Presidente da Mesa d'A Confraria da Cerveja

[UPDATE]
Falou e disse, o Confrade, com a boca tão cheia de eloquência quanto cheia estará a cabeça do Anónimo de, enfim, coisa nenhuma. Quanto à dor de dentes, lamento-a como se de minha se tratasse, grande amigo, e minha quase que é, quanto quase incomodam os Anónimos do mundo. Arejemo-los (aos dentes, não aos Anónimos, esses cheiram mal, atrevo-me) em gargalhadas à sua custa (sua, deles, dos Anónimos do mundo, não sua, confrade, nem dos dentes, A Litrosa os banhe sempre na sua protecção!).
Permita-me que, do maravilhoso tecido de verbo com que honrou o nosso caro Anónimo, tenha extraído a hilariante cena de um qualquer Anónimo de capa preta e um saco de papel enfiado pela montra abaixo e tacteando atarantado o vazio enquanto era vigorosamente e repetidamente agredido na cabeça pelo referido kg de bifes de perú - perdoem-me o sadismo e a clonixina, mas desmanchei-me a rir.

Sem mais de importante a acrescentar, e para remissão da maldade, deixo alguns sítios cibernáuticos que, confesso, não tive tempo de explorar mas que considero útil em tão empolgante jornada.
LUTE POR AQUILO EM ACREDITA, ANÓNIMO! EM FRENTE!

Aqui, aqui ou aqui

Espero ter sido útil.
(cheio de dores pré-) Cordialmente,
Miguel de Miguel, Grão-Mestre e Escrivão d'A Confraria da Cerveja

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nos Braços de Morfina

Caros amigos, chego até vós com uma história de amor.
Acordei com ela, num dia quente de agosto. Acariciava-me o corpo com milhões de pequeninas mãos, pequeninos braços que conciliam a dor que sabia dever estar a sentir. Abraçou-se a cada nervo de mim e quem implorou para me apaixonar por ela fui eu - e ainda dizem que se conquista um homem pelo estômago. Não, é mesmo por via parentérica, com a fome posso eu bem, minha gente... mas a Morfina... ai a Morfina, minha gente, é o menos injusto substituto que eu conheço para a Cerveja.
É sentir o seu toque inebriante, a indolência dos lábios espraiando-se na despreocupação de um sorriso. Ai, como descrever o amor?


Palavras para quê?

Miguel de Miguel

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ensaio sobre a vida

A noite beija o dia numa explosão de sensualidade, apenas possível graças ao véu molhado que cobre a indefinição em que ambos se abraçam. O mundo está parado, num momento raro de contemplação. Parado numa profunda inspiração antes dum inevitável mergulho, que se antevê desesperado e sem retorno.
Permitam-me a veleidade de pousar o olhar numa figura indistinta ao longe... Aproximemo-nos, pé ante pé, desta sombra prostrada pelo cansaço da realidade, num esforço retórico para se manter acordado. O céu veste-se num tom de cinzento carregado, inusitada escolha para um dia perdido nos meados de Agosto, altura curiosa, dado que nunca se percebe muito bem em que ritmo louco anda o tempo. Nunca se percebe muito bem se hoje é hoje ou se já é amanhã. Nunca se percebe muito bem qual o dia da semana em que estamos - mas também, para quê? Não somos escravos das datas, das horas, dos minutos, durante os longos meses de exílio, enclausurados, oprimidos pelas obrigações que nos extraem quaisquer réstias de inspiração, nos chupam até ao tutano com a raiva de nos submeter à sua vontade? Afinal o que somos para lá daquilo que fazemos? Ao fim ao cabo, só podemos conhecer alguém através das suas acções, no sentido lato da palavra - o que diz, o que faz, o que escreve... Só a partir daí podemos deduzir o que alguém pensa, o que sente, o que sufoca dentro de si...
Daí que dedique a minha atenção a este ser, isolado na varanda do seu desassossego, algures numa outra dimensão ou então apenas num recanto qualquer do nosso pequeno vasto mundo. Num óbvio sinal de delírio, ou simplesmente de egocentrismo, vou arrogantemente mascarar-me de omnisciente e tentar desvendar o que ele (pois é dum ele que se trata) resguarda dentro de si do vento frio e cortante que agora se levanta e do sono que se apodera dele, paulatinamente, obedecendo ao compasso das gotas de água que, numa cadência repetitiva, o embalam num entorpecimento assaz estranho e agradável.
Ele é um vulto dum passado recente, ele é alguém que se perde nos pensamentos que o afundam num pânico sem precedentes. Ele é um pobre desgarrado, ele é alguém que se deixa confundir pelos labirínticos pântanos onde é obrigado a tentar encontrar um caminho, um trilho para a promessa que se esconde na bruma que domina o seu horizonte. O que é ele? O que está aqui a fazer? Nem ele sabe. Duvido que alguém saiba.
Olho pelos olhos dele, partilho a sua visão deturpada pelo progressivo cerrar das pálpebras. Vejo as gotas de água num equilíbrio de ballet sobre as folhas dum limoeiro, retorcido pelas intempéries, desfigurado pelos nós da madeira velha e ainda assim resistente. Vejo um regato a precipitar-se, numa pressa eterna, por entre os seixos que os anos tornaram lisos e polidos, obras de joalharia engendradas pelo líquido cristalino que com ele traz um rumor da pureza das nascentes que brotam dum seio de granito. Vejo montes imponentes, sob um capuz de anciãs árvores numa paz inquebrável, enquanto farrapos de névoa tacteante se retiram para o refúgio da atmosfera. Vejo o balir das ovelhas que pastam, inocentes e desdenhosas do universo de carros, máquinas, fumo - só os tufos de erva viçosa e tenra lhes interessam, descobertos por entre as colunas de pedra que sustentam vinhas plantadas pelos avós dos avós dos donos, colunas que se erguem como memoriais da simbiose entre a Natureza e o Homem. Vejo uma rara alegria, uma alegria que aquece uma alma enregelada pelos cuidados, pelas preocupações, pelo cansaço de não viver, uma alegria que não via há muito tempo, há demasiado tempo. Vejo a cristalina e quase infantil alegria de sarar a fadiga com duas inspirações profundas dum ar com um indelével sabor a pinheiros e eucaliptos, de lavar os olhos com um instante de uma natural sublimação, de uma verdura extasiante, de um orgasmo contemplativo.
Vejo o sorriso que nasce nos teus olhos. Vejo a esperança, no coração dele, de poder ver, um dia, esse sorriso ser enriquecido pelo doce curvar dos teus lábios. Vejo o anelo que sente, mitigado num refúgio que sabe que terá de terminar - não há curas definitivas, apenas um adiar do inadiável.


"What is this life if, full of care,
We have no time to stand and stare?"


Uma vida assim não é nada, é um vazio, um vácuo que nos engole e nos expurga de todo o desejo de felicidade. Esta é a minha resposta. Peço perdão pelo atrevimento de ir mais além do que foi William Henry Davies (para os que não conhecem, um Alberto Caeiro galês, e o autor desta questão num dos seus poemas, relembrada por um dos nossos leitores), que considerava que a vida seria pobre se não tivéssemos o tempo para olhar para o mundo em nosso redor, para as maravilhas que temos a sorte de poder apreciar. Contudo, qual o sentido de viver uma vida pobre, se apenas temos direito a uma? Uma vida pobre é um eufemismo, é o mesmo que não ter nenhuma...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O povo que tocou a Lua e depois adormeceu.

Estava-se num tempo agora esquecido, que fica sempre do antesequente só quanto fizerem subsequentemente lembrar os avós e as perguntas espertas.
Recorde-se, então, a fome, o frio e a escuridão que povoavam o rigor dos invernos de Nwangombo, as noites em que todos se despediam e recolhiam ao cassado abrigo de palha e lama das suas casas sem saber quantos sairiam na manhã seguinte. Aninhavam-se os mais pequenos entre o calor das ovelhas que eram, por aquelas paragens, os únicos animais que conseguiam resistir ao corte do frio. Especificamente aquelas, com a sua misteriosa lã, branca cor da neve, de dia, de um preto brilhante de céu estrelado, à noite. A quem possa perguntar, durante a alvorada e o lusco-fusco tinham a cor de amêndoa ralada e cheiravam consistentemente a ovelhas, que normais tinham que ser nalguma coisa. Se durante o resto do ano passavam a noite no estábulo da aldeia, quando fazia frio as gentes atafulhavam-nas dentro de casa, para darem calor. A Luna adorava-as, dizia que eram as mais bonitas do mundo, mesmo sem nunca ter saído da sua aldeia. Não precisava, tinham-na mantido viva ao longo de 6 invernos e gostava delas tanto como dos seus próprios pais. E foi por isso que, num determinado dia (à noite) de dezembro, enquanto o frio mordia ainda com os molares, Luna saiu de mansinho da sua pequena cabana, nos braços uma ovelha pequenina. Esta pequenina rebeldia, justifica-a o facto de, nesse ano, a sua família ter conseguido uma criação anormalmente grande de ovelhas da Lua (era assim que se chamavam, ninguém sabia muito bem porquê). Ora, estando a cabana demasiado cheia, acordou com o balido aflito de uma ovelha bebé que deu por si apertada contra um canto, sem conseguir respirar, perdoem-me a apoquentação.
Ao que interessa, ao sair e pôr os pés descalços nas ervas quebradiças da primeira geada, a Luna deixou de sentir nos braços o suave peso da pequenina ovelha, sentiu-a debater-se e depois flutuar, misturando a sua lã preta no preto frio da noite. Era tão bonito... e, do alto dos seus quase 7 anos, Luna pensou. Percebeu que as todas as superstições têm uma história, que por vezes esquece-se a história mas não a superstição, como a que têm os aldeões de levar todas as noites as ovelhas no estábulo antes de anoitecer. E achou que tudo era ligado, se ao menos houvesse uma criança com paciência de adulto ou um adulto com espírito de criança; poderemos imaginar nós agora como seria previsível que a neve atraísse a neve e a noite brilhante de estrelas o brilhante negro da lã de uma ovelha da Lua, ou mesmo como trabalhou a providência ao colocar nas mãos de uma menina pequena chamada Luna uma pequena ovelha da Lua, ou mesmo o que provocariam as duas ainda hoje. Mas o seu a seu tempo, se no tempo esquecido de que falamos não se sabia do de hoje, também não se saberá a meio de uma história o seu fim.
Admirava então a pequena a magia da ovelhinha e tudo se colocou no lugar ideal. O frio, a ovelha, a Lua, a noite, tudo se conspirou para que um espírito de criança colasse tudo com uma pitada de magia.
O sol brilha muito e por isso é muito quente, mas a Lua também brilha. Até aposto que é suficientemente quente para que, se trouxéssemos cá para baixo um bocadinho, iluminar e aquecer toda a aldeia. Podíamos ir lá buscá-la de noite, quando as ovelhas conseguem flutuar pelo ar. Levávamos carroças e trazíamos uns bocadinhos cá para baixo.
Falou assim na manhã seguinte às gentes da aldeia e ninguém duvidou dela, que a magia das crianças é uma coisa muito séria e, fosse como fosse, o frio convencia a tentar. Em três dias, construíram-se três carroças feitas integralmente de ébano, podia ser que ajudasse as ovelhas, a noite atrai a noite. E na do quarto dia, designaram-se três carroceiros, três homens com picaretas e três mulheres com três sacos e três sandes cada uma, amarraram-se a cada carroça três grandes ovelhas da Lua, e o mundo viu por momentos três carroças pretas com três sacos pendurados e puxadas por três ovelhas pretas cada uma contrastar-se contra o brilho da Lua, enquanto que os carroceiros riam em Oh! Oh! Oh!’s de contentamento. Se a este conto acrescentou alguém um ponto, não será da nossa conta, quem tiver ponta de certeza jure que o pai natal não existe e quem tiver olho vivo conte o que de extraordinário por lá aconteceu, que a Lua fica longe e de cá de baixo não se distingue senão a sua redondez. O certo é que, de manhã, chegaram cá abaixo três vezes três sacos de Lua e quem lá os tinha ido buscar. Vinham ainda quentes, brilhantes não, mas toda a gente sabe que a Lua brilha é de noite. E é facto que, chegada a noite, juntaram-se num monte a meio da aldeia os pedaços de Lua e estes iluminaram e aqueceram todo esse Inverno e os dois que o seguiram, perdendo depois a propriedade.
 Mais que isto, não se sabe. O que se sabe é que, de três em três anos, mais coisa, menos coisa, lá por altura do Natal, acontece um fenómeno chamado “El Niño” que provoca temperaturas mais altas e outras alterações no clima, mas isso é coisa de gente entendida. Mais uma vez, quem souber que jure mas, cá entre nós, eu acho que a Luna não se ia importar muito que a tenham confundido com um menino, não acham?