O dia de hoje rasga a carne.
O dia de hoje é mal dito e mal parido.
Hoje é um dia de sol quente e assadura na virilha.
Esta noite é de cores invertidas,
É de subvertidas reacções.
A noite que se vive é de medo e alucinações.
Porta fora, já se explora a vergonha da noite menina. Já se vai cansado de mijos e bafos, se não se morre é porque o afogueamento não compra sequer o suspiro da partida, já se vai preso ao cenário, já se mexe os braços da maneira que esperam os ébrios mexilhões claclaquejantes dos meios das ruas, já se mete nojo a si próprio e nada mais há a fazer que não aceitar o radiopassivo decaimento das pedras ao som de estática sem propósito.
É assim que se anda pelas ruas deste sítio morto, sem companhia, sem alma e sem música.
É assim que os olhos engasgam um vulto ao virar da esquina e o medo adivinha toques e gritos de todas as direcções, sobressaltos e sangue gelado a cada segundo, de trás, de cima e de baixo, dos lados, um e outro, e da frente. Até de dentro, quando o absinto arranha a garganta com unhas e barba rija que vem de dentro para fora, sufoca o vómito e deita ao chão, de barriga para baixo, pila no meio das pedras, cumprindo a primordial função de cuspir a peçonhenta semente e violar a noite, que guincha sem dó e roda sem acorde nenhum ao fundo deste psicadélico dossel, cada vez mais rápido, berrando o meu apelido, sorvendo o meu suor e cuspindo na minha boca.
Passam os travestis. Passam os drogados. Passam os mosquitos. Passa o mau cheiro. Passa a foda. E o tempo passa, comigo deitado no chão, já sou eu há algum tempo. A morte já chegou, mais o seu cheiro, há algum tempo, e já passou, também, e o cheiro arranjou casa nas paredes descarnadas e fui enterrado bem longe de mim.
Não chove neste deserto onde estou, não há cura para esta lepra, não há droga para este pensamento. Estou no mundo e na posse da agonia, e ela pôs-me sóbrio só para me poder quebrar o espírito.
Estou possuído pelo filho mais feio do demónio.
Saudações cervejeiras!
Miguel de Miguel, escrivão e grão-mestre d'A Confraria da Cerveja
terça-feira, 6 de setembro de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
Vai ser numa noite assim, precisamente como esta.
Não a desejo nem a temo nem a agoiro, sequer, espero-a com uma concentração impenetrável e as duas mãos pousadas em cima da mesa, oito dedos numa tablete de gatilhos e mais dois para lançar de uma palavra em outra, será o espaço intervocabular como o pau das cerejas, raios o partam mais a sua irritante recorrência, e tudo isto o faço como o tísico que espera pacientemente a morte à porta só para lhe fazer a desfeita de se lhe adiantar com um tiro engolido de baixo para cima.
Ou como o amante, à porta esperante, feito destroço em três actos, o próprio, a faca e o alguidar, todos três unos na dor libertadora da retribuição, o primeiro para açoitar com o adjectivo quem com o verbo ainda o fere, desfere a segunda dilacerações no coração de quem lho esmagou, o derradeiro apara os jorros do sangue apodrecido de pecados carnais e derrama-lho rua abaixo e noite dentro, rumo só à ignomínia, salvo a boca de algum cão.
Tudo isto já viu vezes sem quanto e ainda a puta não chegou, nem chegou a noite, a minha puta daquela noite que vai ser, ponto por ponto, como é esta, e é ainda nesta que lhe ensaio os cheiros, as poses, as luzes e os sons todos, demasiados e sobre tudo encavalitados, passos da vizinhança, portas, autoclismos, ventos, cliques e claques da poiese retórica, ventoinhas que sopram, cadeiras que gemem, estômagos que grunhem e o furtivo mas veemente tic do relógio, que expulsou para a rua sem contemplações fraternas o mais pachorrento tac, por falta de espaço.
Di, tri, quadrissecam-se os pormenores desta noite em tudo igual à que há-de vir, massajam-se os punhos e estalam-se o dedos, que dependente do seu digital desempenho está um retrato, em tudo mais perfeito que este, duma noite homicida que me vai matar mais um pouco, outro pouco igual ao que morro agora mesmo.
Saudações cervejeiras
e participem com comentários ou sugestões naquele que também é o vosso espaço - ya, ya, bite me...
Miguel de Miguel, escrivão e grão-mestre d'A Confraria da Cerveja
Não a desejo nem a temo nem a agoiro, sequer, espero-a com uma concentração impenetrável e as duas mãos pousadas em cima da mesa, oito dedos numa tablete de gatilhos e mais dois para lançar de uma palavra em outra, será o espaço intervocabular como o pau das cerejas, raios o partam mais a sua irritante recorrência, e tudo isto o faço como o tísico que espera pacientemente a morte à porta só para lhe fazer a desfeita de se lhe adiantar com um tiro engolido de baixo para cima.
Ou como o amante, à porta esperante, feito destroço em três actos, o próprio, a faca e o alguidar, todos três unos na dor libertadora da retribuição, o primeiro para açoitar com o adjectivo quem com o verbo ainda o fere, desfere a segunda dilacerações no coração de quem lho esmagou, o derradeiro apara os jorros do sangue apodrecido de pecados carnais e derrama-lho rua abaixo e noite dentro, rumo só à ignomínia, salvo a boca de algum cão.
Tudo isto já viu vezes sem quanto e ainda a puta não chegou, nem chegou a noite, a minha puta daquela noite que vai ser, ponto por ponto, como é esta, e é ainda nesta que lhe ensaio os cheiros, as poses, as luzes e os sons todos, demasiados e sobre tudo encavalitados, passos da vizinhança, portas, autoclismos, ventos, cliques e claques da poiese retórica, ventoinhas que sopram, cadeiras que gemem, estômagos que grunhem e o furtivo mas veemente tic do relógio, que expulsou para a rua sem contemplações fraternas o mais pachorrento tac, por falta de espaço.
Di, tri, quadrissecam-se os pormenores desta noite em tudo igual à que há-de vir, massajam-se os punhos e estalam-se o dedos, que dependente do seu digital desempenho está um retrato, em tudo mais perfeito que este, duma noite homicida que me vai matar mais um pouco, outro pouco igual ao que morro agora mesmo.
Saudações cervejeiras
e participem com comentários ou sugestões naquele que também é o vosso espaço - ya, ya, bite me...
Miguel de Miguel, escrivão e grão-mestre d'A Confraria da Cerveja
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
a heresia é um posto
"Enganas-te."
Num sonho, foi o que me disse deus, só isto e mais nada, sem ai nem ui nem inteligentes ditos, nem mais que a leve ironia dos verbos quando se reflectem, todos em geral e este em particular, em particular me apontou o divino dígito e logo a seguir voltou costas e saiu peremptoriamente. Omnipotências à parte, entrou-me como uma agulha pela têmpora direita, saiu pela esquerda como uma dor fininha e o resultado da ideópsia, esse veio taxativo e com azedume e sem mais quês nem porquês, findo, exacto e inútil."Engano-me em quê?", não é?
Mas deus não fala de lógica, nem com lógica, nem com lógicos, aliás, criou o próprio conceito como criou o demónio, por descargo de consciência, e está claro que o homem, como ao demónio, agarrou-se à lógica como a um bote de salvação, apetrechou-a e pintou-a toda de cinzento metálico e outras cores sóbrias, deu-lhe o ar mais eficiente que conseguiu e, ao sétimo dia, admirou a sua obra e viu que ela era boa. A lógica e o bote, meus senhores e minhas senhoras, salvaram-nos do dilúvio, pensámos até que da ignorância, mas os botes não voam e vozes de burro não chegam ao céu, e deus tem o privilégio de lá morar.
Com tanto cá chegámos, depois de uma acusação e uma meia pergunta à boca pequena, aqui estamos à soleira da porta. Se o próximo passo leva à igreja ou ao asilo, decidirão as minhas senhoras e os meus senhores. Falou-me deus ou não, se falou existe, se não, sou louco, e é o que posso espremer desta mirabolice. Se eu fosse um homem honesto, adiantava que o conteúdo da mensagem transporta a evidência divina da divina inexistência. Mas longe de mim dizer para fora o que já em pensamento é pecaminoso.
Boa noite.
Saudações cervejeiras e um duradouro (dura e de ouro, livre-nos A Litrosa de cerveja mole e de outras cores) regresso!
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Abandono
Inspira devagar. Enche o peito. Expira e sente o ar exalado a levar com ele as dúvidas que te esganam num encarceramento constante em redor da frágil e alva garganta, pérolas baças dum colar velho demasiado apertado, velho como o mundo que construiste com pequenos pedaços, presos por frágeis fios. Está prestes a quebrar. Estás com medo. Contudo, não sabes se receias que ele se quebre ou que se mantenha imutável, uno, incorrompível.
O firmamento pinta-se suavemente com as mil matizes de azul, com tons que até hoje desconhecia existirem. Observo-as a enlevarem-se sensualmente entre si num dégradé único, numa perfeição vedada às mãos humanas e que me embala no esquecimento de não pensar em nada. Pensar no nada. Não pensar de todo. Pensar nos pequenos pormenores que não consigo juntar para formar a imagem que se obvia perante mim.
A lua timidamente ascende nos céus, roída até restar apenas uma linha curva, dum branco prateado que ofusca as estrelas invisíveis que a rodeiam. Escondem-se. Desviam-se para um segundo plano no qual se protegem de ser. É mais simples, mais fácil não ser, existir à vista de todos sem se deixar ver.
A noite apodera-se dos subúrbios. Nos dias esquecidos e arrastados dum Verão atípico, os subúrbios hibernam num coma profundo. Vazios de alma durante o ano, vazios de sangue durante um mês. As casas ocas têm os estores corridos, como pálpebras cerradas sobre olhos que somente têm utilidade para olhar para dentro e nunca para fora. O cúmulo do egocentrismo ou a devassa da privacidade, depende da perspectiva. Talvez sejam meras expressões sinónimas, promíscuas no significado mas distantes na forma. Um pouco como esta carne que agora falta nos subúrbios, que segue sempre o mesmo caminho, banal, melancólico, mórbido. Os mesmos passos todos os santos dias do profano ano. Os mesmos passos que o vizinho psicopata do 5º esquerdo ou que a adúltera que vive ao fundo da rua. Ir e vir, vir e ir, vir-se com sorte, ir-se no final.
Esta carne superfluamente diferente, cujo interior é invariavelmente igual. Que não foge deste destino de se sacrificar para ter um telhado sobre a cabeça e pão para levar à boca. Que abdicou de pensar para dar resposta às necessidades básicas do ser humano. Passe o constatável pleonasmo de não pensar e manter-se adjectivável como humano.
A noite esgota-se. Todos os traços e pontos de brancura são consumidos pelo preto cada vez mais carregado. As casas mortas encerram-se em celas de escuridão.
Uma chama só ergue-se no seio dum negro impoluto. Assim se faz luz, assim se marca um último suspiro de vida onde tal não era expectável. Esta é a paz suburbana, interrupção sazonal duma guerra travada sem esperança entre o espírito gasto de mil rostos anónimos e um fado a que se entregaram sem ler nas entrelinhas a verdade crua. A rejeição do que poderiam ser. A negação do sonho.
O sonho que ainda hoje guardo. Ilumino-o com as cinzas hedónicas do deleite, fogo que me orienta nas divagações do ócio. Penso no nada. Analgésico para o fardo de pensar. Não posso deixá-lo fugir, a ele, o pensamento. Sei para onde quer ir e por essa porta entreaberta adivinho uma ilusão de óptica que habilmente mascara um muro cinzento e frio.
Não penso... E eventualmente deixar-me-ei ir. Para onde, não sei. Não reside aí a beleza da abstracção?
sábado, 9 de outubro de 2010
A noite minha é dos candeeiros.
A perna cruzada e os braços abertos,
Afundo-me no sofá de cá de fora.
Fora é um vaso grego e jazz nos acordes certos
E ver o negro Tejo de cá de cima.
Uma noite sedutora que devora,
Por bem menos dos trinta dinheiros,
Este homem, no logro de uma rima.
De embutido na ternura do seu ventre,
Entrego-me à dúvida da própria existência.
Se é possível existir sem consciência,
Seja só na trova.
Sem mais prova que me corrobore,
Sem que chore Lisboa a saudade de mim
E, na noite, se encontre outra pista,
Sou a voz de uma fadista apiedando-se,
Dando-se à morte em cada verso,
Em cada verso, ao esquecimento,
Em cada verso de lamento
Ao sono de um mendigo.
Fecho os olhos e abro um sorriso parvo
E deito-me com ele no passeio.
A perna cruzada e os braços abertos,
Afundo-me no sofá de cá de fora.
Fora é um vaso grego e jazz nos acordes certos
E ver o negro Tejo de cá de cima.
Uma noite sedutora que devora,
Por bem menos dos trinta dinheiros,
Este homem, no logro de uma rima.
De embutido na ternura do seu ventre,
Entrego-me à dúvida da própria existência.
Se é possível existir sem consciência,
Seja só na trova.
Sem mais prova que me corrobore,
Sem que chore Lisboa a saudade de mim
E, na noite, se encontre outra pista,
Sou a voz de uma fadista apiedando-se,
Dando-se à morte em cada verso,
Em cada verso, ao esquecimento,
Em cada verso de lamento
Ao sono de um mendigo.
Fecho os olhos e abro um sorriso parvo
E deito-me com ele no passeio.
domingo, 12 de setembro de 2010
Há um pequenino homem que está preso.
De dentro do seu inferno pessoal, grita um insolente braço de ferro à desinspiração que o toma, que toma sem querer, afogado nas piscinas de sangue e bílis e quantas outras coisas escuras e repugnantes lhe queiram lá despejar. Entre vómitos e pinotes, vai aplaudindo um desfile de fantasmas interiores, do interior do espírito, do interior do físico, do interior do seu cérebro, profanadores incontinentes do seu hipocampo. Franze o sobrolho quem o viu dar uma nota a Caronte, com o ar iluminado de um homem com propósito. Manda borda fora o velho e rema mais rápido, apresenta-se ao maligno e cá estamos.
Há um pequenino homem que está preso por uma jaula que não existe cá fora, chorando ajoelhado a apoplexia que o entrava. Temos pena da sua miséria, e é quanto temos, que os tempos não estão para mais, na miséria estamos todos e antes se vão as vacas magras e os cintos apertados ficando os apertos do coração e a magreza de espírito. Isso porque nós, que somos livres, preocupamo-nos com o mundo exterior, com a política e a economia e com o pouco mais que vai sendo do mundo agora, mas ele não, ele está numa prisão invisível e de espelhos, só consegue ver para dentro e enlouquece-se em problemas circulares e petições de princípio. E é quando o homem pequenino se transforma (se promoção ou despromoção, depende da perspectiva) num pequenino cão que ladra ao espelho e persegue a cauda, sozinho entre dejecções e ecos de dejecções mentais. Pobre cobarde.
E, sem percebermos como, acabamos num universo completamente diferente. Ele, ela. Outras pessoas, a relva emaciada por baixo das mãos, o tacto das mãos secas emaciado pelo álcool, olhos por trás de vidros que olham olhos congestionados por trás de uma geleia de etafilcon A, uma energia triste. Está de noite, muito de noite. O ar cheira a erva queimada e a sangria e só ele é que está com cara de enterro porque só ele sabe.
É assim que morre um quase amor,
Espezinhado num miradouro em São Pedro de Alcântara.
Como a resposta vem já tardia, serei breve.
Com toda a certeza, cara Anónima (ou Anónimo homossexual). Prefere 91 ou 96?
De dentro do seu inferno pessoal, grita um insolente braço de ferro à desinspiração que o toma, que toma sem querer, afogado nas piscinas de sangue e bílis e quantas outras coisas escuras e repugnantes lhe queiram lá despejar. Entre vómitos e pinotes, vai aplaudindo um desfile de fantasmas interiores, do interior do espírito, do interior do físico, do interior do seu cérebro, profanadores incontinentes do seu hipocampo. Franze o sobrolho quem o viu dar uma nota a Caronte, com o ar iluminado de um homem com propósito. Manda borda fora o velho e rema mais rápido, apresenta-se ao maligno e cá estamos.
Há um pequenino homem que está preso por uma jaula que não existe cá fora, chorando ajoelhado a apoplexia que o entrava. Temos pena da sua miséria, e é quanto temos, que os tempos não estão para mais, na miséria estamos todos e antes se vão as vacas magras e os cintos apertados ficando os apertos do coração e a magreza de espírito. Isso porque nós, que somos livres, preocupamo-nos com o mundo exterior, com a política e a economia e com o pouco mais que vai sendo do mundo agora, mas ele não, ele está numa prisão invisível e de espelhos, só consegue ver para dentro e enlouquece-se em problemas circulares e petições de princípio. E é quando o homem pequenino se transforma (se promoção ou despromoção, depende da perspectiva) num pequenino cão que ladra ao espelho e persegue a cauda, sozinho entre dejecções e ecos de dejecções mentais. Pobre cobarde.
E, sem percebermos como, acabamos num universo completamente diferente. Ele, ela. Outras pessoas, a relva emaciada por baixo das mãos, o tacto das mãos secas emaciado pelo álcool, olhos por trás de vidros que olham olhos congestionados por trás de uma geleia de etafilcon A, uma energia triste. Está de noite, muito de noite. O ar cheira a erva queimada e a sangria e só ele é que está com cara de enterro porque só ele sabe.
É assim que morre um quase amor,
Espezinhado num miradouro em São Pedro de Alcântara.
Miguel de Miguel
Com 999 perdões pela ausência prolongada e mais um pelo texto algo depressivo.
Para desanuviar, uma pergunta do nosso último anónimo.
![]() |
Com toda a certeza, cara Anónima (ou Anónimo homossexual). Prefere 91 ou 96?
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Caros e mui prezados leitores, entes cuja materialidade creio que de facto exista - obviamente que, das 1400 visitas que temos aqui no marcador, cerca de 1000 foram refreshes das páginas feitas pelos confrades, no entanto estou em crer que ainda haja algures no mundo e, quiçá, em Portugal, quem visite este tugúrio humilde de louvor à Cerveja - venho neste momento comunicar-vos com uma premência aterrorizante e mesmo algo assustadora...
Mais um ano de sacrifício, lágrimas, suor e muitas e muitas Litrosas se avizinha. Aliás, consigo vê-lo neste momento a contornar a esquina, com aquele jeito vacilante e arrastado que costuma ter quando o vemos a aproximar-se, mais rapidamente, por estranho que pareça, do que estaríamos à espera. Enfim, devaneios. Mas esse ano encontra-se em rota de colisão com os nossos rumos, e pouco ou nada podemos fazer, somente respirar fundo e encará-lo de frente, como um forcado encara um touro - ou seja, embriagado ou sob o efeito de estupefacientes.
De qualquer das formas, qual a razão principal desta verborreia desconexa, que surge das brumas do esforço que é sentar-me diante do computador a uma hora tão tardia? A razão prende-se com o facto deste ser o momento perfeito para desmistificar um assunto que tem assumido proporções bíblicas, um tópico de discussão que tem suscitado celeuma, e que tem sido comentado até por vultos da nobre arte de enviar para a atmosfera bitaites sobre um pouco de tudo sem dizer nada, como o são o Pacheco Pereira ou o Miguel Sousa Tavares (ao pé destas eminências, aqui o vosso confrade não é mais do que um aprendiz jovem e imberbe...).
E de súbito, damos uma canelada sem intenção na questão que nos foi colocada, e que merece desde já uma vénia rasgada, até onde a minha flexibilidade me permite (iria mais longe, mas depois aleijava-me e, parecendo que não, ainda é coisa para doer um bocado), não só pela acuidade histológica da questão, que antecipa (em Setembro) conteúdos que nos vão aborrecer daqui a breves meses, como também pela propriedade filosófica e mesmo, atrevo-me a dizer, metafísica de toda a envolvente da pergunta que se segue:
"a barba do gramaça está à espera de cair?"
Atentem na beleza poética que roça, muito ao de leve - um pouco como a minha barba, que roça muito pouco -, a genialidade, que desce à terra dos mortais e toma forma numa frase interrogativa, que, mesmo concisa, reúne todos os atributos necessários para se tornar uma das grandes citações do século XXI, daquelas que os nossos netos irão sacar à Internet para enfeitarem trabalhos da escola feitos na véspera da entrega. Não acha, inefável Anónimo?
Contudo, à parte do aspecto estilístico acima da média que transpira destas palavras, temos de contestar a total veracidade do facto da minha barba estar à espera de cair. E porquê, questionam-se os intrigados leitores? Porque, em boa verdade, no meu rosto existe uma penugem indefinível que no entanto é real, e que, à falta de melhor palavra, posso chamar barba. Só que este real é relativo, na medida em que é um real frágil e aparentemente inexistente.
Mas vamos dar o benefício da dúvida ao Anónimo, considerando que o que eu possuo na face é, de facto, barba. Isto conduz-nos à grande mensagem deste espírito visionário e transcendente. A barba (a minha, a sua caro Confrade, a de todos os leitores, e, quem sabe, também a do próprio e nunca por demais sublimado Anónimo) é um ente com vontade própria, pensamentos, sentimentos, tormentos e mentos (the freshmaker). E mais. Ela espera, como quem espera um autocarro meia hora atrasado, ou uma operação cirúrgica às hemorróidas. Ela aguarda com paciência o momento em que se precipitará para o chão numa debandada, com um grito de revolta, exacerbando toda a raiva contida durante as semanas em que me tem de aturar.
É esta questão que vem alterar todas as concepções vigentes na sociedade moderna e que achei deveras desafiante e relevante. Daí que tenha perguntado à minha barba o que ela achava. Ela infelizmente não estava, tinha ido às Finanças tratar do IRS, mas mandei-lhe uma mensagem para o telemóvel e ela disse-me que isso eram declarações envenenadas de reles línguas viperinas. Ainda assim, fiquei na dúvida, pois ela anda muito amiga do meu cabelo e da minha orelha esquerda, pelo que também considero plausível uma conspiração que resulte num motim, onde o minímo que se pode esperar serão algumas lojas pilhadas e um ou dois carros queimados.
Portanto, para responder à sua dúvida, julgo que não, mas também não posso ter a certeza, isso poderá ser apenas um vulgar boato, um rumor, um murmúrio sussurrado pelas sombras de mistério que envolvem o carácter da minha barba - boato esse que desde já passo a espalhar, pois com estas coisas mais vale atacar primeiro do que ser atacado (vais ver barba, a mim não me apanhas a dormir...).
Todavia, também eu me interrogo, apesar das minhas dúvidas se restringirem a um nível mais mundano. Como sabia antes deste post, ínclito Anónimo, que há já alguns (valentes...) dias que não dou caça à minha imberbe barba (passe o pleonasmo, e já agora, mais uma Cerveja... [glu...glu...glu...] já está), tendo em conta que há mais de 3 semanas que me encontro num estado de repouso activo, num cantinho, lá no extremo noroeste do País, mais conhecido por Caminha? Você acaba por se elevar, com essa capacidade de vidência e de adivinhação, a um nível de omnisciência só alcançável por Mourinho e Deus (e este último só de vez em quando), o que para mim me leva a repensar tudo o que sei sobre a matéria e as dimensões onde vivemos - aqui está uma discussão que penso que seria muito interessante, especialmente perante um par de Litrosas (Ámen!), não acha insigne Anónimo?
Mais um ano de sacrifício, lágrimas, suor e muitas e muitas Litrosas se avizinha. Aliás, consigo vê-lo neste momento a contornar a esquina, com aquele jeito vacilante e arrastado que costuma ter quando o vemos a aproximar-se, mais rapidamente, por estranho que pareça, do que estaríamos à espera. Enfim, devaneios. Mas esse ano encontra-se em rota de colisão com os nossos rumos, e pouco ou nada podemos fazer, somente respirar fundo e encará-lo de frente, como um forcado encara um touro - ou seja, embriagado ou sob o efeito de estupefacientes.
De qualquer das formas, qual a razão principal desta verborreia desconexa, que surge das brumas do esforço que é sentar-me diante do computador a uma hora tão tardia? A razão prende-se com o facto deste ser o momento perfeito para desmistificar um assunto que tem assumido proporções bíblicas, um tópico de discussão que tem suscitado celeuma, e que tem sido comentado até por vultos da nobre arte de enviar para a atmosfera bitaites sobre um pouco de tudo sem dizer nada, como o são o Pacheco Pereira ou o Miguel Sousa Tavares (ao pé destas eminências, aqui o vosso confrade não é mais do que um aprendiz jovem e imberbe...).
E de súbito, damos uma canelada sem intenção na questão que nos foi colocada, e que merece desde já uma vénia rasgada, até onde a minha flexibilidade me permite (iria mais longe, mas depois aleijava-me e, parecendo que não, ainda é coisa para doer um bocado), não só pela acuidade histológica da questão, que antecipa (em Setembro) conteúdos que nos vão aborrecer daqui a breves meses, como também pela propriedade filosófica e mesmo, atrevo-me a dizer, metafísica de toda a envolvente da pergunta que se segue:
"a barba do gramaça está à espera de cair?"
Atentem na beleza poética que roça, muito ao de leve - um pouco como a minha barba, que roça muito pouco -, a genialidade, que desce à terra dos mortais e toma forma numa frase interrogativa, que, mesmo concisa, reúne todos os atributos necessários para se tornar uma das grandes citações do século XXI, daquelas que os nossos netos irão sacar à Internet para enfeitarem trabalhos da escola feitos na véspera da entrega. Não acha, inefável Anónimo?
Contudo, à parte do aspecto estilístico acima da média que transpira destas palavras, temos de contestar a total veracidade do facto da minha barba estar à espera de cair. E porquê, questionam-se os intrigados leitores? Porque, em boa verdade, no meu rosto existe uma penugem indefinível que no entanto é real, e que, à falta de melhor palavra, posso chamar barba. Só que este real é relativo, na medida em que é um real frágil e aparentemente inexistente.
Mas vamos dar o benefício da dúvida ao Anónimo, considerando que o que eu possuo na face é, de facto, barba. Isto conduz-nos à grande mensagem deste espírito visionário e transcendente. A barba (a minha, a sua caro Confrade, a de todos os leitores, e, quem sabe, também a do próprio e nunca por demais sublimado Anónimo) é um ente com vontade própria, pensamentos, sentimentos, tormentos e mentos (the freshmaker). E mais. Ela espera, como quem espera um autocarro meia hora atrasado, ou uma operação cirúrgica às hemorróidas. Ela aguarda com paciência o momento em que se precipitará para o chão numa debandada, com um grito de revolta, exacerbando toda a raiva contida durante as semanas em que me tem de aturar.
É esta questão que vem alterar todas as concepções vigentes na sociedade moderna e que achei deveras desafiante e relevante. Daí que tenha perguntado à minha barba o que ela achava. Ela infelizmente não estava, tinha ido às Finanças tratar do IRS, mas mandei-lhe uma mensagem para o telemóvel e ela disse-me que isso eram declarações envenenadas de reles línguas viperinas. Ainda assim, fiquei na dúvida, pois ela anda muito amiga do meu cabelo e da minha orelha esquerda, pelo que também considero plausível uma conspiração que resulte num motim, onde o minímo que se pode esperar serão algumas lojas pilhadas e um ou dois carros queimados.
Portanto, para responder à sua dúvida, julgo que não, mas também não posso ter a certeza, isso poderá ser apenas um vulgar boato, um rumor, um murmúrio sussurrado pelas sombras de mistério que envolvem o carácter da minha barba - boato esse que desde já passo a espalhar, pois com estas coisas mais vale atacar primeiro do que ser atacado (vais ver barba, a mim não me apanhas a dormir...).
Todavia, também eu me interrogo, apesar das minhas dúvidas se restringirem a um nível mais mundano. Como sabia antes deste post, ínclito Anónimo, que há já alguns (valentes...) dias que não dou caça à minha imberbe barba (passe o pleonasmo, e já agora, mais uma Cerveja... [glu...glu...glu...] já está), tendo em conta que há mais de 3 semanas que me encontro num estado de repouso activo, num cantinho, lá no extremo noroeste do País, mais conhecido por Caminha? Você acaba por se elevar, com essa capacidade de vidência e de adivinhação, a um nível de omnisciência só alcançável por Mourinho e Deus (e este último só de vez em quando), o que para mim me leva a repensar tudo o que sei sobre a matéria e as dimensões onde vivemos - aqui está uma discussão que penso que seria muito interessante, especialmente perante um par de Litrosas (Ámen!), não acha insigne Anónimo?
Saudações Cervejeiras
João Gramaça, Grão Mestre e Presidente da Mesa d'A Confraria da Cerveja
Subscrever:
Mensagens (Atom)
